LUIZ GERALDO MAZZA
50 anos depois
Nesta semana tivemos a celebração dos 50 anos do atentado contra Carlos Lacerda e que desembocaria no suicídio de Getúlio Vargas. Curiosamente naquele mesmo ano da tragédia tivemos a primeira eleição direta de prefeito em Curitiba. O impacto da morte do presidente e mais os efeitos candentes da Carta Testamento não tiveram qualquer influência no andamento do pleito porque Munhoz da Rocha, o governador, soube manter um bom relacionamento com Vargas e nem o PTB, que seria o herdeiro do getulismo, disso se beneficiou.
Havia um leque de alternativas politicamente mais orgânicas do que as que hoje são oferecidas ao eleitorado curitibano. Não dá para comparar uma cidade de 180 mil habitantes e que os conhecia praticamente de forma pessoal com a megalópole de agora com marcha acelerada para os 2 milhões de moradores. E essa proximidade era enriquecida pelo conhecimento das características dos candidatos e o papel que exerciam bem como o seu currículo, superior em tudo, em termos proporcionais, aos que ora se habilitam.
MÁQUINA A MIL A máquina funcionou a todo vapor em favor do candidato Ney Braga. A chave foi a pavimentação da ligação com Santa Felicidade tocada pelo prefeito Ernani Santiago de Oliveira e entregue dois dias antes da eleição. Além disso Munhoz da Rocha aumentou o funcionalismo estadual e o prefeito em exercício o municipal. Coisas incabíveis nos padrões de hoje. Um dos alvos da oposição era o conjunto de obras do Centenário que consolidariam a Capital como seu pólo máximo, político e administrativo: Centro Cívico, Teatro Guaíra, Biblioteca Pública. Ney ganhou com 18.327 votos, 28,7% do total; em segundo o médico Walace Tadeu de Mello e Silva (pai de Requião) com 11.576 e depois Pinheiro Júnior 11.070, Estevam Ribeiro de Souza Neto 8.007, Amâncio Moro 5.213, João Cid Portugal 4.567, Roberto Barrozo 1.307, Manoel Aranha 1.101. Ney assume em 15 de novembro e deflagra um processo revolucionário na vida da cidade que era uma amostra do que faria sete anos depois no governo estadual.
REVISÃO DE AGACHE Revisou o Plano Agache, ajustando-o às novas realidades e para tanto chamou o urbanista Prestes Maia, de São Paulo, e mobilizou jovens como Luis Armando Garcez, Saul Raiz e Francisca Rischbieter sob o comando de Mário de Mari. O zoneamento separou áreas industrial e residencial. É nessa gestão, sob o comando do coronel Alípio Ayres de Carvalho, que se faz o plano de transporte coletivo, embrião de tudo o que está aí como modelo. Para evitar deseconomias, foi estabelecido o monopólio por área seletiva, o que garantiu viabilidade das empresas que substituíram o caos anteriormente representado pela disputa, sem regras de horário e frequência, dos autolotações.
A cidade era desconectada, a iluminação pública atendia o centro, enchentes eram frequentes, não tínhamos sinais de conurbação. Havia espaço para fazer e hoje, convenhamos, as coisas são mais difíceis. Todos os setores foram atacados e adotou-se o sistema de concessão, com garantias cativas, para a Estação Rodoviária (hoje terminal Guadalupe) que atendia linhas municipais e interestaduais e o Mercado Municipal também com uma espécie de reserva de mercado, não se permitindo sequer mercearias de porte num raio inferior a tantos quilômetros. Hoje os problemas aparentemente encaminhados, Curitiba oferece pouco espaço para intervenções de porte e, o que é pior, tem candidatos que nem de longe estão, como os de 1954, identificados com a população e escorados em currículos adequados. Levam vantagem, no entanto, em equipes multidisciplinares para programas e projetos e ainda por cima com as artes e artimanhas dos marqueteiros.





