LUIZ GERALDO MAZZA
A campanha mumificada
Se o debate de anteontem serve de paradigma para os subsequentes é melhor tirar essa peça da engrenagem pelo fato elementar de mumificar o processo dado o excesso de cautelas regulamentares que cercam esse suposto enfrentamento. É que a sensação lastimável da boa iniciativa da TV Bandeirantes, que tentou, de todas as formas, tirar o processo eleitoral da inércia em que se encontrava e ainda se encontra só ajudaria naquilo que parece uma das piores patologias do processo democrático: o absenteísmo, isso é a disposição do público em negar-se a sufragar qualquer um dos nomes propostos.
Como sempre os áulicos, hoje profissionais por vivermos numa época impossível de recriar o voluntarismo da eleição de 1985 entre Requião e Lerner, quando havia uma vibração amadorística na participação, acharão que tudo foi muito bom e nos conformes. Mas os engajados são minoria e o ceticismo é de tal ordem que dificilmente, se o cenário não mudar, se recuperará o entusiasmo.
Muitos acham que com programas bem elaborados na campanha de tevê e rádio será possível alterar o quadro e aquecer a disputa com propostas e não costumeiras acrobacias verbais que mais escondem do que revelam. Pelo desempenho havido a impressão é a de que não houve um só candidato, dentre os que se apresentaram, que estivesse à altura da complexidade dos problemas da megalópolis que está aí a nos desafiar com suas rígidas amarras metropolitanas e que tendem a se tornar mais agudas com a passagem do tempo.
Todos perderam: os que participaram e os que presenciaram. E lamentavelmente depois da euforia vivida, no início da noite, com a vitória do escrete brasileiro sobre o da Argentina em condições dramáticas. Esperava-se que fosse a sobremesa de um dia fértil em emoções e o que tivemos foi a necessidade de tomar doses cavalares de Engov. Que horror!
BIZARRICE Há necessidade de candidatos críticos e sobram os cítricos.
AXIOMA Sanepar já entrou, duas vezes pelo cano, na questão do acordo de acionistas no STJ. Mas o governo acredita que a verdade jorrará no final como a fonte não perecível da Justiça.
GLOSA Nas feirinhas de Curitiba pesquisadoras perguntavam ao público sobre os transgênicos. O problema é que o nosso governador vai ter que responder a interpelação do presidente do STF sobre o tratamento que dá ao assunto.
EPIGRAMA A campanha não deslanchou, mas está visível que há muita convicção em relação ao ''tapetão''. Já tivemos jornais apreendidos e no sábado houve novas apreensões de material eleitoral. Como os candidatos são ruins, ao menos pela amostra de até agora, é imperativo que advogados e patrulheiros operem.
FOLCLORE As regras para medir a escolaridade de candidatos municipais vai dar extremo trabalho à Justiça. Educadores discordam dos conceitos que visam aferir o conhecimento dos postulantes. Um alfabetizado pode ler um texto e não ter condições de interpretá-lo como de resto ocorre com os vestibas que possuem escolaridade formal suficiente. Há uma medida de ignorância (em alguns casos de ''sabedoria'' popular) que é um condimento indispensável à política. Tudo o que havia de tosco se atribuía a Benedito Valadares no folclore político de Minas Gerais, o que não o impedia de exercer forte liderança. Uma das perfídias do adversário político é atribuir a seu desafeto a burrice. Como se fez, e de forma injusta, contra Manoel Ribas. Num discurso em Curitiba, Eurico Dutra teria dito terra das ''araucarías'' e Maneco Facão justificaria falando ser impensável dizer ''estrebária'' e sim estrebaria. Era a forma de ligar o interventor às suas lides com os campos, o gado e os cavalos.





