Pisando a onça morta

Pisar na onça morta é falsa coragem. Quando o Tribunal de Contas do Paraná negou aprovação ao relatório de Haroldo Leon Peres, que tinha renunciado por suspeita de improbidade, pela vez primeira aquele órgão, que nunca antes havia desaprovado contas governamentais, foi um desses episódios de coragem bastante suspeita.
É o que acontece com o regime militar. A maioria que não o enfrentou agora passa pela condição de combatente e deita e rola em cima dos anos de chumbo. Heróis em série ou mesmo vítimas, tal qual se dá com o holocausto, também há de despertar suspeitas.
Agora todo mundo virou Inspetor Javert, aquele de ''Os Miseráveis'' e que perseguia Jean Valjean como Requião faz com secretários de Lerner, em cima do acidente na ponte-viaduto, paradigma de engenharia e arte do século 19, e na concessionária América Latina Logística (ALL). Foram tantas as evidências de que a empresa burlava normas de segurança para obter vantagens econômicas, e isso evidenciadas nas dezenas de descarrilamentos seguidos de desastres de natureza ambiental, que surpreeende o fato de só agora, diante do sinistro, é que surjam tantos depoimentos de sindicatos, associações, conselhos regionais de engenharia, afirmando que a via permanente estava abandonada, que é, de qualquer forma, inaceitável que apenas um maquinista responda por um comboio de 35 vagões, enfim fazendo a profecia da tragédia ''a posteriori''.
De um modo geral as privatizações feitas no Brasil não foram boa propaganda do modelo. Isso é visível nas ferrovias, nas rodovias e na telefonia, esta a campeã absoluta das queixas dos usuários. Pergunta-se se as tais agências reguladoras, como essa dos transportes terrestres ou dos aquaviários (delonga dos procedimentos no Porto de Paranaguá, a despeito das barbáries acumuladas, é uma dessas terríveis constatações) funcionam e para que servem como aliás se mostram deficientes na energia elétrica e na telefonia. É ridícula a postura tardia da sociedade para algo que já estava mais do que constatado e essa veemência que aquece os discursos de agora e que faltou na hora certa.

BIZARRICE - Os ipês rosa e roxo começaram a florir e lembram mais uma promessa, também não cumprida, de Requião, a de que faria retornar o IPE, Instituto de Previdência do Estado, para assistência médica que até agora não aflorou. E se viesse, cá entre nós, seria uma forma indireta de salários para quem, há mais de oito anos, não tem aumentos. Afinal nem só de professores vive o Estado.

AXIOMA - A ALL, como de costume, afirma que sempre andou na linha.

GLOSA - Situação vivida no teste de vereadores. O vereador alega que tem curso superior para driblar a avaliação e o inspetor replica: ''Não perguntei se você tem o terceiro grau, quero saber se é ou não analfabeto''.

EPIGRAMA - O governo anuncia benefícios em mais de mil quilômetros de estradas e pelo sistema de pedágio de manutenção. Façam o que eu digo, mas jamais façam o que eu faço. É elástica a distância entre discurso e praxis.

FOLCLORE - Pela amostragem de alguns ''sites'', até de fora daqui, a campanha eleitoral vai ser mais sórdida do que parede de banheiro de rodoviária. Espera-se que a vigilância dos próprios agredidos e do TRE seja suficiente para transformar tudo isso, na pior das hipóteses, ao menos num aterro sanitário e sem exaustão como o da Caximba.

CROMO - Salvador Dali, com traços clássicos, fez levitar um Cristo crucificado no qual a geometria é que surpreende. Assim penso a santa pecadora que por vezes vejo em você na linha de fuga do horizonte, o manto azul ao fundo.

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