LUIZ GERALDO MAZZA
Escolha nas catacumbas
Só falta agora os cínicos sugerirem que essa pré-convenção do PT sobre a aliança com o PTB por ter sido feita sem acesso da imprensa seria metáfora aos bravos militantes da igreja das catacumbas e do cristianismo primitivo. Deboche em política não tem limites e como o discurso das supostas intenções vale mais que a prática do cotidiano, esses prestidigitadores se afundam em acrobacias para justificar o injustificável.
O fato de esse encontro ter sido sigiloso já revela, de saída, o terrível constrangimento que parecia atingir o petismo verdadeiro. Todavia a vitória do pragmatismo e do vale tudo para manter e ampliar o poder mostrou que a maioria dos fisiológicos, de acordo com a melhor tradição brasileira, acabou vencendo a minoria aguerrida dos autênticos para usar um divisor de águas que durante bom tempo marcou a vida do MDB e do seu sucedâneo o PMDB.
E foi para evitar que a opinião pública soubesse o que foi dito desse acordo e das práticas do aliado nacional e malvisto pelos comprometidos com a melhor doutrina que se adotou a censura odiosa aos jornalistas que tiveram que aceitar a versão consumada e distribuída. A experiência é muito boa para revelar que se o PT chegar ao Palácio Iguaçu a verdade das situações mais contraditórias sempre chegará sob a forma de ''release'' ou a palavra ungida do ditador de plantão. Como de resto tem sido a nossa tradição.
Das outras convenções o que se pode dizer é que, a despeito do foguetório e do clima de carnaval, decalcado como caricatura das práticas semelhantes dos ianques, predominou a discurseira balofa, despojada de qualquer conteúdo com todo o mundo a prometer ''propostas'' não enunciadas porque ninguém as tem e todas dependentes do filtro cromático e pegajoso do ''marketing''.
BIZARRICE - Em tempos eleitorais o racha de cargos é mais frequente do que o afano de cargas, mas na campanha é que ficam incubados.
AXIOMA - Há empreitada de delito comum e há empreiteiros de obras, todos são convocáveis para a causa eleitoral que os depura de qualquer origem suspeita como se fosse a porção de água benta ou do fogo sagrado.
GLOSA - A moral do PT é curiosa: manda fotografar ônibus na convenção do PFL, mas se cala no uso de veículos de empreiteiras da Petrobras que fraudaram a convenção do PMDB que elegeu seu diretório municipal. Certamente o raciocínio é assim: no primeiro caso era a orgia dos patrões, no segundo a causa era em defesa do trabalhador explorado. Haja Engov.
EPIGRAMA - Como dizia aquele teatrólogo alemão marxista: a cadela que pariu Hitler está prenha de novo.
FOLCLORE - O rancor é o tom dominante da oratória do senador Alvaro Dias como se viu na convenção do PSDB: disse que o governo Requião não existe e que ele não passa de um Napoleão de hospício. Por causa dessa imagem Requião processou o ex-deputado federal Hélio Duque e que foi absolvido. É o repique daquela piada do governador segundo a qual aqui no Paraná os irmãos Dias eram tigrões diante de FHC, mas em Brasília viravam tchutchucas. Como se vê é o mesmo nível de um debate entre o trabalhista Clemente Atlee e Wiston Churchill. Curso intensivo de deseducação política e marcha aberta para o fascismo. Que pobreza!
CROMO - Sinto roubar um pouco do alimento da gralha azul ao me fartar com essa gostosa sopa de pinhão.
AFORÍSTICO - Segundo o DataFolha para cada dois eleitores que aceitam o apoio de Lula na eleição municipal de São Paulo há a perda de cinco que o rejeitam. No Paraná a situação pode ser até pior por não existir alguém como a Marta Suplicy na parada, apesar de o PT achar que Requião compensa as perdas.





