Polarizar é preciso (fim)

A decisão da Renault de produzir o Mégane Sedan II no Paraná é mostra da importância de senso geopolítico nos negócios. É verdade que as concessões foram excessivas, especialmente as de natureza tributária, que Requião tenta rever, mas tanto nesse caso como no da Audi-Volks poderemos ter decisões semelhantes com sua linha de produtos. Perdemos a Chrysler em Campo Largo, o que serve de advertência sobre riscos de uma área notoriamente saturada e agredida pela crise mundial.
Já perdemos lideranças como a do Bamerindus, a da Refripar, da maior loja de departamentos da América Latina com a Hermes Macedo, a Auto Viação Nossa Senhora da Penha, Móveis Cimo. E continuaremos correndo riscos com essa compulsão especialmente de Curitiba em cima do mega-empreendimento visível no excesso de shoppings e hipermercados. Aliás, o do grupo Sonae, que deveria ser erguido no Atuba, está cancelado por falta de viabilidade e saturação.
GIGANTISMO Outro empreendimento gigante, o Centro de Convenções do Shopping Estação, é uma aposta no futuro e na maturação do projeto. Foram aplicados mais de R$ 80 milhões para um retorno esperado de dois anos. Curitiba superou o acanhamento revelado quando da criação do complexo mercadológico em Piraquara (shopping, supermercado Carrefour, central de compras) que foi combatida pelo comércio estabelecido. Apostou-se no centro da cidade e em favor do Shopping Mueller de maneira escandalosa e dificuldades políticas e administrativas esvaziaram o pólo que operaria longe do centro.
Incompreensões até de empresários progressistas como Roberto Demeterco, dono da rede Mercadorama, foram registradas. Embora presidente (imaginem) do Instituto Liberal acusou a prática de preços (um ''know how'' admirável) do Carrefour como se fosse ''dumping'', isso é baixa de preços para provocar a quebra dos concorrentes.
DESECONOMIAS Pessoalmente isso pode ter algo de intuição acho que não há como manter essa compulsão pelo mega-empreendimento em Curitiba e esse sinal emitido pelo Sonae não pode ser subestimado. Duvido que essas figuras tristes que vão disputar a eleição em Curitiba tenham peito e talento para examinar uma questão complexa como essa. Intuitivamente sabem que é possível coexistir o grande empreendimento com o pequeno e o micro (o retorno do ''small is beautiful''), mas jamais saberiam teorizar a respeito. A euforia do Cassio Taniguchi com os seguidos prêmios conferidos a Curitiba (revista ''Exame'') como a área mais densa em iniciativas em negócios mostra que nem ele percebe os riscos e distorções dessas formas de concentração capitalista.
Polarizar demais, além da medida, é um caminho certo para deseconomias como se vê no exemplo de magalópole como o ABCDE paulista. Dali veio um processo de atomização industrial e desconcentração que acabou nos beneficiando. Uma das medidas sábias do governo Requião, no qual é notória a escassez de QI, veio de um setor competente o fazendário pelas ações do tributarista Eron Arzua com iniciativas que desoneraram micro e pequenas empresas e as que ampliaram, de forma consistente, o poder de competição de organizações paranaenses.
UMA REFLEXÃO Questões corriqueiras no interior mostram que de uma forma espontânea alguns municípios como Cianorte (confecções), Imbituva (têxteis), o Oeste-Sudoeste com frigoríficos exploram seus potenciais. Londrina se habilitou com o seu Estádio do Café a figurar no mapa do País num setor relevante e contou com a boa condição do time de futebol, o Tubarão, que chegou a campeão da Taça de Prata e quarto lugar no Brasil, o que o levaria hoje a Libertadores. Ter só o estádio não basta e essa é uma advertência sobre cautelas na polarização. A discussão em Londrina sobre a chegada da Wal-Mart e a destinação de área para megaempreendimento cultural se insere no contexto.

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