O tédio programado


Agora a Assembléia Legislativa quer criar a sua tevê. Em nome do que chama de ''transparência'', ela não se contenta em ser algo ligado à internet ou mais uma emissão a cabo. Quer ser uma tevê aberta para que seu público não se limite às classes altas. Demagogia e populismo até na justificativa.
Vamos propor uma preliminar aos deputados, já que eles juram lutar pela mais absoluta transparência, que seja meridiana, solar. Pois bem: já que o autor da iniciativa e o presidente da Casa, deputados Neivo Beraldin e Hermas Brandão, foram partícipes junto com os demais reeleitos da legislatura passada, como o líder oposicionista Amaral, daquela sórdida farsa de montar a CPI da venda das ações da Sercomtel com a Copel num dia, e fazê-la sumir do mapa no dia seguinte, pouco mais de 24 horas depois, indispensável é que esclareçam, de vez, o ocorrido. É uma experiência válida de autocrítica que de certa forma poderia legitimar o decantado compromisso com a transparência.
Há outras pendências que precisariam ser esclarecidas e que já obtiveram até o respaldo do Judiciário como a da manobra que fraudou a votação da lei de iniciativa popular que impedia o leilão da Copel e que o presidente da Casa se recusa a reexaminar sob o fundamento, discutível, da perda de objeto.
Vemos, por esses exemplos singelos, que a prática normal da Assembléia não é a clareza e transparência e sim a obscuridade porque ali é muito mais copioso o que não se sabe, porque oculto, do que o conhecido. A regra dominante não é a do transparente e muito menos do translúcido e sim do opaco. Se tiverem a humildade democrática de estabelecer um psicodrama interno para explicitar essas e outras anomalias que venham a ser colocadas daí, então, a Casa terá feito a purgação de culpa indispensável para a promessa que diz seguir com essa idéia de escassa criatividade e que, além de tudo, condenará a audiência a tédio mortal daqueles identificáveis numa película intimista e angustiada do cineasta Antonioni.
BIZARRICE Uma tevê do legislativo, que merecesse a condição de transparente, deveria operar como um ''Big Brother ''. Quantos deputados a suportariam ainda mais quando os bastidores fossem mais vistos do que o palco?
AXIOMA Mandatos deveriam ser temporários, ética e institucionalmente falando, mas quando deputados que não se reelegem viram procuradores da Assembléia, às vezes sem a condição de bacharéis, percebe-se que se tornaram vitalícios no poder, enfim uma expressão claramente cartorial.
GLOSA Outra singeleza: se o Legislativo é essencialmente comprometido com a renovação, fundamento-chave da democracia em ação, como é que se aceita o fato de o complexo administrativo estar entregue aos mesmos agentes de mais de 40 anos passados? É a mais clara expressão de imobilismo e de um poder que vai além daquilo que está previsto nos textos constitucionais.
EPIGRAMA Lembremo-nos da advertência do estadista Otto Von Bismark, segundo a qual haveria uma semelhança enorme entre a feitura das leis e das linguiças.
FOLCLORE Uma das vergonhas recentes do Centro Legislativo Presidente Aníbal Khury foi a do painel de votações, que custou uma fortuna, não chegou a ser usado e acabou sendo removido. Quer dizer que com a retirada pelo menos nos livram hipoteticamente de uma tramóia como aquela do painel do Senado e que teve o mérito de levar à renúncia três pais-da-pátria.

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