Obras e atitudes


A escassez de recursos à disposição do Estado é tão asfixiante que já não tem sentido a opção político-administrativa entre um governo de obras ou afinal de atitudes. Requião optou pelo segundo caminho, já que brigar contra o bingo e o pedágio, os transgênicos e contratos anteriores têm mais nutrientes do que tentar fazer obras num aparelho falido.
Já citei o caso referencial de Alvaro Dias, tão compulsivo quanto Requião por essa coisa vaga, que é o ''marketing'' da moralidade, já que a corrupção em todos os níveis de governo é endêmica, que ao denunciar a formação de cartel, e isso em nível nacional, na segunda etapa da hidrelétrica de Segredo, não apenas acuou os licitantes (menos Cecílio Almeida que ficou na batalha até vencê-la nos tribunais) como se revelou um paradigma. É verdade que explorou também a gigantesca obra, a maior do sistema estadual nos tempos em que a Copel era uma empresa de vanguarda e com espaços para a expansão, mas ficou a nítida impressão de que a ''atitude'' a denúncia do cartel valeu bem mais do que o feito da engenharia.
Governos brasileiros, inclusive o do Paraná, digeridos pelas despesas de custeio no velho exercício de se fazer receita para a autofagia dos gastos incontroláveis, se condenam à dependência das parcerias público-privadas que aqui foram buscadas por método na gestão de Lerner. Um dos atos relevantes daquele plano era o de vender o melhor ativo, a Copel, e que só não ocorreu por causa da reação do mercado que não foi ao leilão, o apagão e, mais ainda, o ataque às torres geminadas em Nova York.
Mais um ato alegórico, na direção do compromisso com ''atitudes'', por mais destituídas de senso que pareçam, potencializadas pela mídia e por um suposto sentido moral que as justificam, foi o fim do Serlopar ontem na escolinha. Se apurássemos os ouvidos certamente detectaríamos o coral de anjos e querubins que festejavam essa importante aleluia, em admirável canto gregoriano, que coloca, uma vez mais, o Paraná como uma porção diferenciada do Brasil. Sem bingo, sem transgênicos, sem pedágio e agora sem loteria. E com um jeito rematado de sem ter o que fazer.
BIZARRICE - Viu o programa do PFL de Curitiba e concluiu: esse pessoal da Heads não tem cabeça.
AXIOMA - O Tony Garcia, sob a direção do Jamil Snege, parecia um Lawrence Olivier ou John Guielgud diante do Osmar Bertoldi, o criatividade zero.
GLOSA - Não se deve dizer o que ''rola'' no PFL e sim o que roda. Nem sempre numa canaleta exclusiva. Do interesse particular ao coletivo. Mormente esse que às vezes ou quase sempre se confunde com o particular.
EPIGRAMA - Lerner era um ''chupador'' de soluções urbanas e paisagísticas. E tanto que alguns curitibanos que foram, há pouco tempo, à Europa descobriram que o nosso ex-governador era plagiado por lá por mais de meio século. Agora o Osmar Bertoldi faz o itinerário invertido, pois Lerner, ao menos, tinha o cuidado de recriar o que via, dando a sensação do ''novo''. Criatividade zero.
FOLCLORE - O não fazer e o aparentar fazer são um sucesso de público: em pesquisa o nosso Requião aparece com mais de 65% de credibilidade. Se passar a fazer algo certamente atrapalha.
CROMO - Já não me surpreendo que você em sonho é menos onírica do que na real.
AFORÍSTICO - Quando o governador derrubou as cercas metálicas do Centro Cívico parecia estar abrindo as portas do Palácio Iguaçu ao povo, mas o fosso está a exigir uma ponte levadiça como nos castelos medievais, como se viu ontem.

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