LUIZ GERALDO MAZZA
O Estado leigo
O Estado ainda se mantém forte, apesar da lipoaspiração a que foi submetido. Nos países dependentes, e que justamente por serem populistas olham o governo como o patriarca bíblico, a redução de porte da máquina estatal teve efeitos terríveis. Percebe-se aqui no Paraná no caso do Departamento de Estradas de Rodagem que ficou sem equipe e sem equipamento e não tem a menor condição de recuperar o papel que exerceu no passado. O desmonte foi geral, apesar daquela promessa, tida como nova estratégia, de devolver o Estado a suas funções essenciais de saúde, educação e segurança pública.
LEIGO EM PLANO O pior foi a perda de uma das funções básicas, a do planejamento. Percebe-se isso no dia a dia do Brasil e Paraná. Não há estratégia, visão de longo prazo, capacidade de prever para prover. De que valeria ter planejamento ou cuidar de uma área dessas na quadra atual? Percebe-se pela agenda do governo estadual ora bingo, ora transgênico, ora pedágio, ora ruptura de contratos (manifesta no açodamento com que pretendem, a toque de caixa, alterar a composição acionária da Sanepar) que o seu cronograma é o próprio acaso.
CRISE ENDÊMICA O próprio Lerner também se descurou e muito dessa questão, embora tivesse pessoas altamente qualificadas na secretaria, primeiro o Cassio Taniguchi e depois Miguel Salomão, e tivesse executado um robusto programa de obras, o que absolutamente não acontece agora. O que guardamos de sinais do Lerner? Aquela cena das garatujas do mapa do Paraná para indicar como nele se postavam os chamados anéis de integração, o ''peixe'' do pedágio. Havia no entanto algo de logístico nesse caso até como imposição de um ''modelo'' nacional, o das tais parcerias entre o público e o privado. Hoje não há nada de articulado, posto que os núcleos de estudos e programação continuem operando no Ipardes e em outras áreas.
É verdade que o caráter autofágico do governo se intensificou: os recursos de custeio devoram o orçamento e não se vê o mínimo sinal de racionalidade para o médio e longo prazos. Como se pudéssemos, à maneira de Luis XIV, declarar a frase inspirada: ''depois de mim, o dilúvio''.
HAJA VAREJO Hoje o que se vê no Paraná é o varejo das ''atitudes'' tidas como de impacto no denuncismo, no moralismo, em cruzadas fundamentalistas como a dos produtos transgênicos e o bingo. Isso é suficiente, pela exposição frequente da figura do governador, para manter a atmosfera emocional e a imagem do justiceiro, o que é altamente despolitizante e inócuo. Não é difícil saber porque não temos expressão alguma em termos nacionais e não sermos respeitados.
No segundo governo Lupion e lembremos que o planejamento brasileiro se impõe à essa época, via Roberto Campos tínhamos a Coordenação do Pladep, Plano de Desenvolvimento Econômico do Paraná sob coordenação do coronel Alípio Ayres de Carvalho, o genuíno introdutor da técnica entre nós. As reuniões da ''escolinha'' do governo atual são uma garatuja perto daqueles comitês multidisciplinares que faziam exposições sobre a nossa realidade e como se poderia nela intervir: quadros que a Universidade de hoje não tem lá estavam para diagnosticar e propor. Era um orgulho ouvir os cérebros do Instituto de Biologia e Pesquisas Tecnológicas. E o que o Paraná é de forte e articulado deve muito àquela massa cinzenta. Dá para pensar numa cobranças dessas do amanhã dos times que têm entrado em campo ultimamente? E convenhamos que não se trata apenas do governo atual. Leigo em plano, leigo em ação.





