O poder condigno

John K. Galbraith, em ''Anatomia do Poder'', fala das variáveis do poder e lista o ''condigno'' em primeiro lugar que se estrutura em algo próximo da expressão divina, que fundamentava a monarquia antiga, algo incontrastável, decorrente de uma submissão extrema. Em seguida viria o ''poder compensatório'', aquele decorrente de salário, de algum ganho, que poderia no caso dos escravos estar expresso na alimentação, o que é mais um embuste da servidão pelo fato de essa figura, despojada de direitos, ser um ''bem de capital'', um semovente como os animais de carga e que para produzir precisam comer. A última e mais refinada forma seria a do ''poder condicionado'', esse que decorre da cultura, da religião, da ideologia.
A relação do Brasil com o mundo exterior, especialmente os monitoradores do FMI, é de tal dependência que se enquadra em formas afinizadas de escravismo e que lembram esse traço de ''condigno''. Tenho sustentado que essas relações por sua assincronia lembram a dos Estados sob tutela ou curatela no domínio do Direito Internacional. Ironicamente o governo brasileiro se transforma num capataz da tal dívida que todos sabem impagável, sempre alvo dos discursos demagógicos e sem compromisso com a realidade porque são estreitíssimas as possibilidades de uma ruptura desse enquadramento servil. Lembro de alguns Rui Barbosa de compota, do MDB, pedindo, com fúria nacionalista, mas sem nenhum assento no mundo concreto, auditoria dessa dívida no Congresso Nacional, o que provocava o delírio dos milicos nacionalistas postos à margem do regime, como se deu com os generais Andrade Serpa e Albuquerque Lima.
Pouco antes de morrer, o sociólogo Octávio Ianni sugeriu que o Brasil adotasse como a China e a Índia um projeto claro de inserir-se na globalização valorizando o Poder Nacional. Temos dado mostras com os feitos de nossa agropecuária e dos nossos institutos de ciência e pesquisas que é possível fazê-lo e levar a melhor em produtividade e domínio de pragas e doenças. A ida à China, se escoimada de seus aspectos de espetáculo para o público interno, pode ser uma pista instrumentalmente válida por seus efeitos geopolíticos, tanto que levou parte da imprensa americana a olhar essa aproximação como capaz de desequilibrar o tabuleiro da logística e colocar sob risco a hegemonia dos Estados Unidos. No caso, a paranóia é gratificante, ainda que possa ser dirigida, maliciosamente, para alisar o ego de nossa caipirice.
LINGÍSTICA - O professor Carlos Alberto Sanchez, especialista em linguística, deu um laudo, no processo contra os ex-secretários de Lerner, afirmando que o juiz e o promotor que sentenciaram e denunciaram são a mesma pessoa. A linguagem de advogado, promotor, juiz, delegado de polícia segue uma padronagem assemelhada e isso decorre de uma acomodação já não observada em outros centros do país, em que se busca o coloquial, a expressão substancial, o desprezo ao ornamento e à adjetivação excessiva. Se esse laudo será ou não uma peça relevante e decisiva no processo não se sabe até porque o mestre mostrou mais os erros costumeiros de linguagem e sintaxe, solecismos, galicismos, prova dessa pouca afeição à norma culta. Fixou-se muito pouco numa questão mais esclarecedora que seria o estilo, também área de sua especialidade, se é que nessas peças burocráticas há lugar para tanto. Infelizmente o pernosticismo na linguagem é algo que se desenvolve ao lado do culto à terminologia da área, isso em qualquer profissão liberal. Aqui em Curitiba, em passado distante, havia um advogado, famoso por suas sustentações gongóricas. Ao referir-se ao cachorro quente chamava-o de ''mastim escaldante''.

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