LUIZ GERALDO MAZZA
Sempre Coca Cola
Cada povo tem o naco da modernidade a que faz jus. É por essas razões que a sociedade brasileira viu, boquiaberta, a revelação do IBGE de que 85% das famílias têm uma renda insuficiente para fechar o mês. Todos estão carecas de saber isso por método, entalados que se encontram nas amarras do cheque especial e dos cartões de crédito e empurrando dívidas com a barriga.
É visível que se trata de um efeito perverso do consumismo por uma sociedade incapacitada a dominar o choque dessas mudanças para as quais não criou seus instrumentos de controle para metabolizar esse impacto. O cerco ao consumidor é impiedoso e se olharmos uma Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios iremos ficar surpresos com a parafernália de equipamentos existentes num barraco ou unidade rústica, na nomenclatura acadêmica, ocupada por setores das chamadas classes de D a E. Hoje, além da tevê, tão universalizada como o fogão a gás, iremos encontrar refrigeradores, chuveiro, xampus e em alguns casos até forno de microondas e automóveis, velhos, sim, mas que rodam.
ORDEM SATÂNICA Um intelectual da praça, o Medawar, chamava essa sociedade de satânica e com toda razão. É o predomínio do hedonismo, não aquele dos romanos e gregos, que Epicuro pregava como a busca do prazer pela prática da virtude, mas esse que escraviza as pessoas a buscarem até o que não precisam. Perceber isso é fácil: basta entrar num ônibus de linha da periferia e ver o número de pessoas pobres e que parecem vibrar de felicidade, próximas da catarse religiosa, porque falam, que nem papagaios, em seus telefones celulares. Nem sempre os elementos de adorno, uma roupa e um sapato incrementado, aparecem, mas o ícone do momento, e que domina os meios de comunicação de massa, lá está com todo o seu fulgor.
Há quem diga que existam compensações de caráter psicanalítico: ao usar o celular ou fumar um cigarro de determinada marca há a ilusão, obviamente de traço virtual, de mobilidade social, a de que se alcançou um outro patamar de estratos sócio-econômicos. Como o nosso itinerário é muito mais feito de ilusões do que de racionalidades cartesianas fazemos aí a vassalagem ao Deus da moda, o Mercado, a versão atualizada do Bezerro de Ouro, essa, sim, a mais completa e abrangente das ideologias.
RESISTIR COMO? Costumam economistas e sociólogos afirmar que não existem formas de resistir à globalização e isso aí é precisamente a sua expressão. Para cada povo oferta-se uma hipótese de modernidade: lembro de uma foto abrangente e dramática, documentada no Zaire com as multidões andando, desesperadas, de um lado para outro numa tensão civil enquanto dominante no alto a mensagem em francês do refrigerante da modernidade Toujours Coca Cola. Sempre Coca Cola em nosso idioma selvagem, tão claro quanto o outro. Em ambos o sinal de uma coisa só: a cultura reflexa, a força do colonizador.
Há uma complexidade no tema que não dá para deixar aos cuidados da canalha política que o carrega de deturpações populistas e primárias ou apela para a cretinice de tratar tais símbolos como se fossem a expressão imperialista. Uma das simplificações da esquerda idiota tenta reduzir o homem ao consumo também primário como se não pudesse aspirar as fantasias. Aí também guardo a imagem, como aquela do Zaire, extraída da primeira página do Estadão, da madona etíope com os seios mirrados e o filho à beira da morte no colo e que mostra em seu pulso nada mais nada menos do que uma pulseira em tecido, um adorno. Ao troglodita ideológico isso soaria como alienação quando faz parte da aventura humana desde a proto-história, do nosso irmão da caverna. Há formas de resistir, de por limites nas coisas e evitar a escravização. De buscar um mínimo de lucidez e que começa com essa evidência do IBGE.





