Agora, a saideira

Espera-se que com a publicação da reportagem da ''Veja'' se encerre essa sequência de absurdos iniciada com aquele texto do ''New York Times''. Bem no estilo da publicação, que procura não fazer qualquer ofensa direta ao presidente, ela acaba aumentando a carga de folclore sobre os hábitos pessoais de Lula, registrando frases e ocorrências ao longo de sua carreira. Ilustra o documentário com a famosa foto do presidente no banco trazeiro do automóvel depois de uma celebração petista.
Há situações hilárias como a comparação que o assessor Gushiken teria feito de que se isso ocorresse no Japão com o imperador desdobramentos seriam bem mais fortes do que os havidos no Brasil. A analogia é incabível pela circunstância elementar de sermos tidos, o que também não é muito verdadeiro, desde 1888, como república. O texto acentua as trapalhadas e procura mostrar que há preconceito, listando inclusive nomes importantes da história entre os que bebiam e os tiranos que não o faziam como Hitler. Lembra, ainda, que Bush, o presidente americano, era alcoólatra e que depois que se curou praticou a extrema violência contra o Iraque. Não estava de fogo, mas incendiou o mundo.
Todas as publicações semanais trataram do tema, o que prova que a dosagem já passou além da conta. As desculpas do repórter americano foram suficientes e parece verdadeiro que houve problema não apenas na tradução como em especial a edição do título da matéria, o que não está no contexto, de que houvesse uma preocupação nacional com os hábitos presidenciais.
Enfim quem está de porre é a mídia, num momento altamente constrangedor para ela, quando tenta passar o chapéu pelo BNDES para corrigir os seus erros de gestão, em muitos casos megalomaníacos. É a prova cabal de que Macunaíma, nosso paradigma, está em todas com o seu heroísmo desprovido de caráter e de uma certa incompatibilidade civilizatória das nossas deformações para viver o que chamam, de boca cheia, de modernidade. Entre a vida como um litro, não um livro, aberto e um cofre posto à disposição, balançamos.
Tomara que seja, de fato, a saideira, que já está provocando enjôo. De certa forma convenhamos que o assunto é mais do que ''dose'', é uma ''ressaca''.
BIZARRICE - Ontem Requião deu uma de antropólogo no lançamento de convênio para construção de casas populares em áreas indígenas e deitou falação sobre cultura material e espiritual dos silvícolas. Índio que sai da oca e da taba e veste a camisa do Flamengo não é mais índio, mas um aculturado. E num momento fez a saudação do ''anauê'', indígena e apropriada aos integralistas de Plínio Salgado, nacionalista como ele, Requião.
AXIOMA - Pelo jeito o terror vai ser uma variável do que até recentemente foi representado pela guerrilha. Esta, primeiro na Indochina, depois no Vietnã, parecia também aos colonizadores e tropas de ocupação um horror e fora da ''ética'' bélica e dos seus padrões de normalidade formal e cerimoniosa.
GLOSA - O Brasil tem mais antropólogos do que índios. E de repente chegaremos ao extremo de termos mais Ongs tratando de meninos de rua do que meninos de rua. Pode-se dizer que no caso há falta de censo quanto de senso. Dissenso demais.
FOLCLORE - Quando se fala em regime de cotas e a necessidade de concursos para o serviço público, urge lembrar as razões pelas quais o bruxo Anibal Khury não os fazia na Assembléia Legislativa. É que só eram aprovados, segundo o sábio, japoneses e comunistas. Imaginem comunista concursado no regime militar. Passava e não levava. Pelo menos essa era a justificativa oblíqua.

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