A agenda negativa

Todos aguardam a tal agenda positiva de Lula e o que se vê é a proliferação de ''não assuntos'' como bingo e agora essa confusão com o New York Times. E para complicar o presidente ainda concede uma entrevista à ''IstoÉ'' negando que use o álcool em demasia.
O governador Requião aponta seguidamente um exemplo de como se dá a entropia no processo de comunicação: os bonzos do Vietnã, que se imolavam com gasolina e fogo nas ruas de Saigon, foram aos poucos, depois do horror que provocavam, caindo da capa dos jornais para as páginas internas até figurarem como meros registros exóticos. É a aplicação concreta de um princípio de termodinâmica à comunicação social.
Apesar de cercado por intelectuais, o presidente e seu estafe não perceberam que o assunto, a despeito do mau jornalismo e da leviandade agressiva, haviam transformado Lula em vítima, o que é um dos nossos delírios comportamentais. Com a medida extrema adotada na cassação do visto de permanência, saiu de uma posição de vítima para a de algoz. A metabolização do evento, que já criara uma atmosfera de solidariedade ao presidente que unira governo e oposição, se completaria com a carta do embaixador brasileiro ao jornal. O tema sairia de foco se não tivesse sido realimentado.
Aqui no Paraná o nosso último estadista, Munhoz da Rocha, que também bebia moderadamente, foi apontado pela perfídia dos políticos como um abusivo. Quem conviveu com ele, sabe que se tratava de uma safadeza. Vieram as piadas, outras perversidades e na derradeira campanha de que participou contra Paulo Pimentel para o governo o poeta Liberalino Estevam, ótimo nas quadrinhas, caricaturou os dois lados com os versos: ''Não assopre contra o vento// que o vento não tem lei// seja Bento cem por cento// mil por cento contra o Ney''. Ney tinha sido cunhado de Bento e iniciado por ele na política. Como se desentenderam (o movimento da criatura contra o criador) era o eleitor-chave daquele pleito. Mas o Liberalino, dialético ao extremo ao opor os versos de Castilho aos de Marambaia, mandou brasa :''Nesta era tão moderna// e de tanta confusão// Paraná não se governa// com uma garrafa na mão''. Como a sopa de Lavoisier, na qual nada se cria e tudo se transforma, assim se desenvolve a maldade, às vezes até animada pela própria vítima.
BIZARRICE 1 Liberalino Estevam desentendeu-se com um cidadão negro que o teria tratado por ser de fora, um adventício (Curitiba cultuava essa cretinice), com desprezo. Sensível, o poeta fez um soneto alexandrino daqueles que superariam o próprio Emílio de Menezes, do qual me lembro, e isso serve como amostragem, a primeira quadra: ''Suporto e finjo que sequer escuto// os impropérios desse vil crioulo// cuja epiderme se lhe deu por luto// e a língua torpe por fugaz consolo''. Hoje estaria enquadradíssimo nas leis anti-discriminatórias, apesar de replicar uma odiosa discriminação com outra.
BIZARRICE 2 Não temos mais o hábito da poesia e da trova como blague e caricatura no jornalismo, muito comum até os anos sessenta. Um texto, simulacro de épico, pela métrica e a dimensão, denominado ''Barão de Arapoti'' foi dedicado a Moisés Lupion pelo jornalista Barros Cassal que tinha fases de aproximação e distanciamento do político. Mexia com a família, dava os nomes, enfim fazia um estrago. Brigava e reconciliava, tanto que no jornal ''O Dia'', que era do governador, assinava a coluna ''A ferro e fogo''. A favor.
AFORÍSTICO Num bar (vamos manter o cenário) o Barros Cassal improvisou versos no guardanapo: ''O vizinho do sargento Clemente// não estava doente, nem nada// Chamou a criada: Fulana me traz uma empada// O vizinho do sargento Clemente comeu a empada// Que morte engraçada!''

mockup