Equilíbrio nas cotas

Em meio ao modismo (decalque de instituições externas, especialmente o modelo ''esteites'') e mais o caráter emocional da pregação, o Conselho Universitário da Federal aprovou o regime de cotas naquela instituição, primeiramente para negros e índios e numa segunda etapa, ainda não discutida, para orginários da escola pública. Um detalhe bom na reunião foi o escore apertado de 21 a 19, com o que se percebeu que a temática não é unânime quanto alguns apressados tentam sugerir.
Mas se pensam que isso esgota o assunto estão enganados: já houve ações judiciais nas pioneiras universidades que adotaram a medida e com inteira admissão para os que foram prejudicados. O funil da universidade é, como se sabe, dramático e uma inovação dessas fermenta o desequilíbrio porque quando se faz concessões em nome da exclusão faz-se outro tipo de exclusão ao direito de quem acabou preterido embora com nota melhor.
Norte-americanos têm mil razões para essa consciência tardia: sofreram com a guerra civil em cima da questão e só pelos anos sessenta do século passado é que amadureceu a causa dos direitos civis dos negros e de sua integração, pois isso lhes era negado nas escolas e no transporte coletivo. O regime de cotas veio em sequência, já que não era prioridade maior.
O detalhe a elogiar no caso paranaense é justamente o acirramento do debate que mostrou que não se trata de matéria singela e é imperioso que prossiga em outras instâncias, inclusive na judicial, e que nele se envolva toda a sociedade e não apenas os engajados de circunstância ante os modismos. Na apontada como democrática sociedade americana os negros arrancaram seus direitos na oração de Martin Luther e de tantos outros, mas também na porrada daqueles bravos que incendiaram dezenas de quarteirões em Detroit ou dos componentes do ''Black Power'' que no ''podium'' da glória nas Olimpíadas exibiam com punhos fechados a identificação de guerreiros.
BIZARRICE - Sobre a questão racial no Brasil, sempre dissimulada, há a frase célebre do meia-direita Robson, do Fluminense, que dizia ''eu já fui negro e sei o quanto isso é duro''. Ele tinha sido pobre, o futebol (aliás Mário Filho tem livro clássico sobre o tema, elogiado inclusive por Gilberto Freire) é que lhe permitiu a ascensão como em tantos outros casos. Imaginaram cotas para jogadores brancos na Bahia?
AXIOMA - Grande Otelo, convidado para júri do Carnaval curitibano (tortura pura para um folião), ficou espantadíssimo com o predomínio de europeus sobre os de raiz afro nas escolas de samba.
GLOSA - Aqui os poloneses eram discriminados e caricaturados em função de sua simplicidade e pobreza cultural o que não impediu que alguns de segunda e terceira gerações assumissem o poder como Lerner, polaco e judeu.
EPIGRAMA - O Atlético e o Coritiba resistiram muitos anos à presença de negros em seus times. Aliás a alta burguesia é que integrava até os anos 20 os nossos principais times. A evolução passou como um trator em cima do preconceito.
FOLCLORE - De Londrina veio o primeiro deputado negro do Paraná, o baiano e médico Justiniano Clímaco da Silva. Na discussão sobre o preâmbulo da Constituição, se incluía ou não o nome de Deus, entrou em choque com o comunista e mestre Vieira Neto (defensor do Estado leigo e democrático). Fez o discurso em latim na ordem indireta (oratio obliqua) e ao receber um aparte do criminalista e professor universitário Laertes Munhoz corrigiu-o. Ficou amigo do hoteleiro Jonscher que o hospedava, mas no primeiro encontro ao ver alguém como ele no automóvel tratou-o como se fosse o motorista.

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