A sub missão


Há submissão e sub missão. As expressões podem ganhar, filológica e semanticamente, sentido de sinônimo. Isso vem a propósito dos ''pitos'' e advertências do governador Roberto Requião aos seus secretários e demais auxiliares. Ganhar mal, como se dá com os secretários, para ainda por cima merecer puxões de orelha é algo, em certos casos, próximo da autoflagelação religiosa.
Um secretário elogia o governador e este não perde a deixa de chamá-lo de ''puxa-saco''; outro é repreendido publicamente por dizer que o governo tem que usar seu aparato para ganhar eleição, o óbvio alarmante, e ontem a ''deixa'' do psicodrama foi ameaçar os que tivessem com seus carros oficiais sem caracterização de andar a pé como penitência.
Há um lado bom nessas formas de autoritarismo por quebrarem rituais e obrigarem os participantes a se manterem antenados e por ajudarem a romper a rigidez de protocolos desde que o chefe conceda aos demais o direito também de serem engraçados e espirituosos. Há uma questão, porém, de dosagem, já que toda a adusividade é detestável.
A obediência é algo que até nas religiões ganhou nova conceituação. Depois do Concílio e do pontificado de João XXIII até a liturgia se tornou flexível, ainda que com prejuízo, segundo alguns teólogos, do ''mistério'' e daquela aura mística hoje reivindicada pelos carismáticos que vieram para conter os exageros dos seguidores de Comblin e dos irmãos Boff, ''libertadores''. Vivemos um tempo de pluralismo, de contraditório, e isso deve irrigar a intimidade dos governos, das empresas, dos sindicatos e até das religiões. É incompatível com o contemporâneo heresias como a do centralismo democrático.
É visível que nem todos são tratados da mesma forma e na base do sarro no conjunto do governo. Não consta que uma figura de gabarito e elas são exceções diante da pobreza de quadros como o secretário da Fazenda, Heron Arzua, um nome de expressão nacional, seja alvo dessas ''boutades'' e irreverências.
Não há conveniência política que justifique a aceitação passiva desse ''psicodrama'' permanente que é estar no governo. A não ser que o governante seja olhado como um sacerdote do templo e portanto incapaz do erro. Aí também não se aceita essa postura, já que a Igreja, ao fazer autocrítica sobre os exageros da Inquisição, lançou por terra o dogma da infalibilidade papal.
Para quem enxerga na submissão um ato missionário tudo se justifica e até ganha medida de sublimação. É algo intransferível, pessoal, subjetivo que só cabe observar e com extremo risco no julgar.
BIZARRICE Greenpeace é ala auxiliar de Requião no caso dos transgênicos: lembra Batman e Robin como relações públicas de Gotham City.
AXIOMA A Embrapa mostra como o Estado brasileiro pode postar-se num quadro de globalização: aceitar a concorrência dos gigantes e vencê-los na pesquisa como no caso da criação de quatro varidades de soja transgênica. Idiotas acham que a soberania de um país é defendida com gritos impotentes de ''Fora, FMI''.
GLOSA Há ainda os que acham que os assentamentos de sem-terras são mais relevantes do que o abominável e capitalista agronegócio. Utopia retrô.
FOLCLORE O Piauí criou o ''dia do orgasmo'', ontem celebrado. E isso quando vivemos, haja vista o caso do roubo de armas da Aeronáutica, numa espécie de permanente ''dia da impotência'' em escala nacional.
CROMO É meio barroco, mas você me lembra em tudo a linhagem do camafeu.
AFORÍSTICO Requião quer carta branca da Assembléia e ameaça a resistência ensaiada com um bilhete azul ou cartão vermelho.

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