LUIZ GERALDO MAZZA
O marxismo de Requião
Max Lerner (esclareça-se que não é parente do ex-governador), cientista político norte-americano, costumava ironizar a circunstância de que o livro ''O Príncipe'', de Maquiavel, era mais citado do que lido. Com Karl Marx e outros gênios se dá o mesmo. Saca-se uma frase, um dito irônico ou profundo e estamos conversados. Tal qual se faz também com as encíclicas papais, das quais se extrai, para efeito referencial, o que convém: os integristas, linha conservadora e radical da Igreja, se agarram nos anátemas contra a chamada modernidade, o consumismo e as várias tonalidades da esquerda se ligam nos pontos de estímulo social e de aberta condenação ao capitalismo.
Numa das suas mais recentes intervenções em público, antes daquele dedo de prosa com o jornalista em Centenário do Sul, quando com seu gesto se mostrou um adepto da luta contra a exclusão digital, o governador Roberto Requião se disse marxista. Stalin também se acreditava na mesma linha, embora haja aqueles que isolam Marx de Lenin, por exemplo.
KARL OU GROUCHO Só que pelo seu comportamento mais próximo de Mussolini (aliás antes do ''fascio'', o símbolo feixe, o Benito também foi socialista) e seu glossário de idéias voluntaristas bem distantes do determinismo histórico, é difícil saber a que tipo de Marx se refere. Pode ser um dos três geniais daquela família que assombrava o cinema ianque nos tempos heróicos, embora pareça distante demais do melhor deles, o mais sensível e criativo, o Grouxo. Aquele que não frequentava clube que o aceitasse como sócio. Requião poderia agir assim na política (e quem sabe até ele acredita que o faz no alinhamento contestatório das diretrizes de Lula), mas até para despistar, confundir, é preciso algum método.
Em ''Hamlet'' há um momento em que o príncipe atormentado em ações cada vez mais ambivalentes suspeita da própria loucura (''ser ou não ser'') por parecer ter método demais. É comum no discurso psiquiátrico ou da psicologia clínica identificar a coerência interior do portador de uma patologia. Assim também daria para ver na atração-repulsão, oscilante, de Requião com o PMDB algo bem próximo daquilo que Grouxo disse do clube que o aceitasse como sócio. Já foi expulso do partido (o clube) por uma guerra desarrazoada (bem no estilo dessas que aí estão como a do pedágio, a dos transgênicos) contra o Quércia, de quem hoje é amigo desde criancinha. Na eleição presidencial a maioria esmagadora do PMDB era engajada com José Serra, ele com Lula que agora também fustiga rotineiramente. E atinge, aí também, o sistema (novamente o clube).
SUBVERSÃO DO DIAGRAMA A estória de Grouxo é a seguinte: tentou entrar num clube de golfe e recebeu bolas pretas. Seus amigos, pretextando lealdade, resolveram criar um clube para que o genial Marx nele curtisse o seu lazer. Aí veio a frase famosa. É possível que Requião tenha um sentimento, que não oculta, de hostilidade ao ''non sense'' da política para a qual dá importantes e, às vezes, inspiradas contribuições. Nesse sentido não deixa de ser um marxista, da linha Groucho.
Em 1985, quando foi candidato a prefeito contra Lerner, por várias vezes o apontei como uma ''subversão do diagrama'' da política, a inovação. Mas da mesma forma que considerei Lerner, já aquele tempo, um repertório técnico-político-estético esgotado, dá para perceber que também o modelo Requião cansou, está com sinais de fadiga do material, estresse e não se capta qualquer indicação de que se recicle. O pior é que se não fossem tão escassos os sinais de talento e de coragem em sua equipe dava para acreditar que algum dia alguém, assumindo o papel (como fazem falta) dos preceptores clássicos, o levasse àquilo que um verdadeiro marxista, aquele da dialética materialista, faz como exercício obrigatório o ritual da crítica e autocrítica. Não como penitência, mas como esforço de busca da verdade.





