LUIZ GERALDO MAZZA
O fim do trabalho
Semana passada um componente da equipe do sociólogo italiano Domenico di Masi me entrevistou no andamento de uma pesquisa que desenvolve sobre Curitiba. E como ele segue a linha do ócio criativo coloquei a obviedade de que o mundo globalizado está vivendo a pior das perversidades justamente na precarização do trabalho. A persistir assim, dentro em pouco, teremos mais lazer, não por um desfrute e sim por imposição da realidade do desemprego. Entre as modalidades esportivas assalto à mão armada, invasões de terras e áreas urbanas, sequestros-relâmpagos, tráfico de drogas ou ainda a de sair por aí, como se fosse um gondoleiro de Veneza, a cantar hip hop enquanto empurra, de forma divertida, o carrinho de catar lixo.
O BURLESCO - Estamos novamente comemorando o Dia do Trabalho, de origem revolucionária e transformado, pelo mimetismo capitalista, numa burla de confraternização, sem jeito e sem caráter. No passado distante o trabalho era o fator mais digno da produção e o capital seria, no discurso acomodado, apenas a resultante de um processo de cristalização do esforço laboral. E foi em função dele que surgiram as doutrinas sociais, a mais brilhante e revolucionária, a de Marx que identificou na luta de classes o meio de superar as contingências da acumulação capitalista no ''Manifesto Comunista'' em que faz uma descrição perfeita da globalização, visível já naquele tempo.
Da mesma forma que se financeirizou a economia também os postos de trabalho migraram para as áreas onde seu custo fosse menor. Essa circunstância é vista dentro do Brasil: muitas têxteis, de Santa Catarina e outras unidades da federação, se deslocaram para o Nordeste por causa do item mão-de-obra mais barata. Aqui no Paraná tivemos um exemplo claro com a chegada da Renault após o fechamento de uma unidade na Bélgica. Obviamente os caturras daqui, apesar daquele ar eufórico do Lerner, deveriam ganhar menos de um terço daquilo que seus colegas europeus percebiam, isso sem considerar que aqui o layout da montadora é mais singelo, poupador de mão-de-obra, mais tecnológico e com níveis altos de robotização, de custos baixos pelas concessões fiscais as mais absurdas e outros incentivos como terreno e até uma estação abaixadora de energia e agressões ambientais que comprometeram o Rio Pequeno.
O HORROR - O Brasil já é catalogável como evidência do ''horror econômico'': mais de 50% da população economicamente ativa não têm carteira assinada, espraia-se como mancha oleosa a informalidade e as taxas de desemprego são afrontosas como as de juros. O governo leva semanas, em reuniões sucessivas do seu gabinete, para firmar um salário mínimo de R$ 260, o que obviamente fermenta políticos e os sindicalistas para um jogo de braço com o oficialismo, aí unindo oportunistas de sempre, da base aliada e da oposição.
A profecia de Marx está aí: ele tentou evitá-la com a luta de classes, mas o capital levou a melhor ao criar instâncias dentro das empresas para manipular o trabalhador como o setor de recursos humanos especializado em formas bem refinadas de lavagem cerebral ou quando não suficientes de outras para inibir a direção sindical afrontosa. Ademais os sistemas, ditos socialistas, que tentaram justificar-se no primado do trabalho se especializaram, na construção do ''novo homem'', em técnicas de repressão e de assassinato em massa.
E a prática brasileira tem demonstrado a frustração representada pelo primeiro líder obreiro que chega à presidência da República nas artes de manter a opressão na subordinação primária às panacéias do FMI. Octavio Ianni, antes de morrer, denunciou essa traição e mostrou que a China e a Índia são mostras de que no mundo globalizado é possível defender um projeto nacional sem perder a identidade e sem subordinar-se a uma tutela que transforma os nossos governantes em capitães de mato ou capatazes de uma nova escravatura.





