LUIZ GERALDO MAZZA
À maneira de Pirandello
O teatro de Luigi Pirandello é seguidamente lembrado pelos políticos em função de obras como Seis personagens em busca de um autor ou a irônica Assim é se vos parece. Requião vem contestando, de forma sistemática, o modelo Lula, embora a sua proposta alternativa seja primária ao desconsiderar a diferença entre o cenário provincial, e o do presidente, mais complexo.
De qualquer forma, determinado a fazer um governo de atitudes e não de obras (por vezes aquelas se fixam mais do que estas, como se deu com Alvaro Dias quando denunciou a formação de cartel na licitação da Usina Hidrelétrica de Segredo, o que acabou lhe dando mais pontos em Ibope do que a obra) e ao fluir episódico das circunstâncias, nervosas e tensas, convulsas até, dá para imaginar uma doutrina e uma epistemologia para justificar o agito. Sugeri, pessoalmente, num encontro ocasional com o governador, que ele o fizesse não à base de slogans e saques contra o neoliberalismo e a globalização mas em cima de uma articulação teórica, dotada de algum vigor. E indiquei que na sua equipe há pessoas como o jornalista Benedito Pires em condições de fazê-lo.
UM CONTRAPONTO - Como contraponto e antiparadigma de Lula, Requião pode expressar tonalidade não pouco relevante do espectro ideológico, apesar dos seus equívocos, de certa forma, primários de submissão ao abominável nacionalismo como detectou Octavio Ianni nas choramingas inconseqüentes do Fórum Social pelos petistas. É óbvio que não há como, nas condições atuais, restaurar o Estado Provedor, cadáver insepulto. O que não significa que não se possa e nem se deva fazer um esforço para recompor o Estado onde ele se faz necessário, notadamente num país com nossos desníveis sociais e regionais.
O conceito do mestre Belmiro Valverde é claro: nem o Estado Onipotente e muito menos o Ausente. Recompor parte da máquina detonada pela sofreguidão do governo Lerner é possível, posto que complexa: o DER, por exemplo, perdeu suas funções e lastimavelmente o seu dirigente, outro dia, destacava o fato de haver recuperado a fábrica de placas de sinalização. Vejam a insignificância disso, já que o DER perdeu seus recursos humanos e materiais e hoje não tem como recuperar sequer uma instalação básica, a do laboratório de solos.
D.E.R., UM EXEMPLO - Perdeu a capilaridade que no passado tornou um dos seus maiores líderes, o general Luis Carlos Tourinho, autor do Plano Rodoviário desde Munhoz da Rocha, como candidato a deputado federal com uma das maiores votações proporcionais da história. Sua complexa organização distribuída pelos Distritos tinha, inclusive, áreas em que atuava por administração direta e isso não se limitava aos turmeiros encarregados das tarefas de manutenção e correção das rodovias e com poder de mobilização rapidíssimo, isso sem falar que fornecia apoio às vias vicinais e municipais. A legislação tornou isso perempto e inaplicável com as novas concepções de controle da contabilidade pública e sobretudo a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Diretores de distritos rodoviários se transformaram em políticos da maior grandeza e com mandatos populares e isso é apenas um referencial de como há dificuldades no caminho para obter maior presença do poder público. Apesar dos esforços para contestar a concessão de rodovias percebe-se que não há aparato tecnicamente habilitado para cumprir esse papel como se percebe na batalha fundamentalista do pedágio.
O que se percebe é que há mais praxis do que teoria nas ações de Requião e que é perfeitamente possível bolar essa articulação teórica para contestar o pragmatismo de Sancho Pança de um governo federal imobilizado e queimado por suas contradições internas, hoje tisnado, ainda, pela corrupção.





