LUIZ GERALDO MAZZA
Fagulha na pradaria
Citei, tantas vezes, a metáfora de Mao-Tse-Tung que ao voltar a fazê-lo driblo meus constrangimentos e a pobreza de criatividade: ''uma fagulha na pradaria'' é algo que tem força imagética para sugerir a revolução. Já fui punido por isso. Tanto que no ''Correio de Notícias'' a revisão me pegou ao botar ''fagulha na padaria'' que afinal é tão fácil de ocorrer quanto a outra e até mais próxima em contingenciamento geográfico.
Pois ontem tivemos algo semelhante na Rádio CBN Curitiba. Rafael Greca fez uma ironia com os aliancistas sugerindo que a transformação de uma convenção em jantar caracterizaria uma ''galinhada com energia da Itaipu''. Causa primeira de tudo isso foi uma nota da Ruth Bolognese, essa Lucrécia Bórgia dos venenos verbais e mortais, nesta Folha explicando que o jantar teria sido marcado por dona Olívia, esposa do presidente da Itaipu, Jorge Miguel Samek.
Como é maliciosa a interpretação envolvendo a binacional, pois afinal dona Olívia é reconhecidamente uma organizadora de eventos partidários, mais ainda é a do Rafael Greca, jogando lenha e umas gotas de gasolina na fogueira do Madalosso, o segundo maior restaurante do mundo. Samek não teve o mínimo fair-play e decidiu, depois de ouvir o jurídico da Itaipu, interpelar judicialmente o deputado estadual para que explique, detalhe, enfim, o que pretende dizer com a provocação. Era a fagulha na pradaria apesar da aparência, afinal em tudo de que participa o Greca, de uma esgrima de jogos florais. Pelo jeito nem abrindo as comportas de Itaipu se apagará tão cedo esse incêndio que, a rigor, não passa de um curto-circuito.
Nem tudo que se pode fazer em política deve ser adotado. Por exemplo: com aquela decisão judicial que reduziu o ''quórum'' eleitoral no PMDB municipal, o Gustavo Fruet poderia ir à frente e exigir a consequência natural daquela avaliação anulando a convenção. Preferiu não fazê-lo e tentar, com todos os prejuízos que o seu grupo sofreu (inclusive a notória intervenção de terceirizadas da Petrobras com emprego de automóveis naquele encontro, o que configura crime eleitoral), na base da mobilização e do convencimento, alterar a orientação adotada. Ingenuidade do formalismo jurídico que subestima a alta capacitação desse pessoal para esse tipo de jogo no qual são pós-graduados.
Se o tique-tique nervoso toma conta de todos, dos aliancistas aos defensores da candidatura própria, dá para prever que o PMDB, ganhe quem ganhar, não escapa da dissidência. Que não será pequena e que pode decidir o pleito.
BIZARRICE Itaipu era apontada em 1985 como capaz de decidir as eleições nos municípios da faixa de segurança (eram 12). E tanto não deve ter se metido no pleito que Richa ganhou em todos, incluindo Curitiba, levando Requião às costas e derrotando o mitológico Jaime Lerner. Fez 13. Não houve ''zebra''.
Aliás o Samek ganhou essas eleições em Curitiba e no oeste-sudoeste.
AXIOMA Samek já aprontou historicamente outras: ao mostrar na TV, como candidato a governador, a planta do apartamento novo de Alvaro Dias (político tem horror de que exibam seus sinais de riqueza) provocou efeito quase igual ao das bombas de gás sobre as professoras e com isso, indiretamente, acabou ajudando a eleger Lerner.
GLOSA Rafael Greca é um Requião mais gordo nos chistes e verrinas. Age no mesmo estilo quando cria a presunção de envolvimento da Itaipu, o que não tem o menor fundamento. Exatamente como Requião quando diz que o ministro Roberto Rodrigues é empregado da Monsanto. Aí a interpelação é mais consistente e tem mais razão de ser em função do clima psicossocial criado com o fundamentalismo adotado na cruzada vazia contra a transgenia. A Embrapa acaba de criar duas variedades de soja transgênica. Defende mais o país do que urrar contra o FMI.





