LUIZ GERALDO MAZZA
Esquerda, direita
Um dos últimos textos de ciência política de Norberto Bobbio foi o ''Dextra, Sinistra'', traduzido, obviamente, para ''Direita, Esquerda''. O FHC disse ter lido o livro no original, sugerindo que o autor não via sentido nesse rigor da topografia política. Se leu e assim interpretou é porque não entendeu. Bobbio localizou a aspiração-chave da direita no liberalismo e, sobretudo, no culto à liberdade e colocou na esquerda a busca da igualdade como a referência-chave da luta socialista.
O esforço dos dissidentes do PT como Heloísa Helena e Luciana Genro, que aqui estiveram para fazer prosélitos em torno de um novo partido que resgatasse as bandeiras traídas por aqueles que chegaram ao poder, é legítimo na medida em que enriquece o espectro ideológico nacional. Quando a esquerda ''endireita'' demais como aconteceu, em nome da manutenção do poder e de um pragmatismo que os doutrinadores rejeitam, é indispensável esse processo.
Como é que o PT hoje no Paraná, depois de tudo o que está ocorrendo, pode ousar, num exercício de imaginação, que o deputado Ângelo Vanhoni ainda detenha aquelas condições e aquele potencial que quase derrubaram Taniguchi? Se já naquela época - e isso era nítido na linha estético-funcional da campanha decalcando vinhetas e atmosferas da manipulação lernerista - havia semelhança de enfoque pela intimidação de não enfrentar a chantagem de que os que criticam Curitiba não a amam hoje a situação está muito mais perversa pelo fracasso, pelo menos até aqui, da presença de Lula no governo: até a fúria beligerante no campo, pelo menos na ótica da Pastoral da Terra, teria aumentado em 67% nos casos de mortes. Isso sem falar na debacle geral da perda de renda do trabalhador brasileiro, o desemprego e, sobretudo, o imobilismo que atingiu o Palácio Alvorada depois do Waldogate.
O problema de qualquer partido ideológico será o de superar as imposições da chamada cláusula de barreira a ser aplicada na próxima eleição presidencial. PPS, PC do B, PS, entre outros, terão extrema dificuldade de atingir os parâmetros mínimos em alguns estados e na totalidade do País. Se o neo-PT for um PSTU reciclado não escapará da ''degola''. A rigidez do enquadramento pode ser de extremo prejuízo ao filtro ideológico brasileiro, afinal a utopia próxima e condenando o PT à adiposidade do fisiologismo e do ''centrão''.
BIZARRICE - O MST faz sua arregimentação também em Curitiba e seus dirigentes querem o enquadramento do militar que disparou contra o militante Antonio Tavares na gestão Lerner. Não faz muito tempo a OEA condenou o governo brasileiro por causa da execução de Diniz Bento da Silva, o Teixeirinha, fato ocorrido em Campo Bonito no primeiro governo Requião. A viúva do militante e o filho órfão processam o Estado, pedindo indenização, por uma questão simples: Teixeirinha se entregou aos policiais e assim mesmo foi executado.
AXIOMA - O sociólogo Octavio Ianni, morto na semana retrasada, deixou algo que pode ser visto como um testamento relativamente a Lula: ele acha que o nosso presidente frustrou seu papel histórico e mostra que a Índia e a China são exemplos vivos de como aderir ao globalismo sem abdicar de um projeto nacional e enfim de participar do centro decisório. Uma frase forte é a de que os petistas ''preferem usar o palanque do Fórum Social para proferir discursos comprometidos com um nacionalismo anacrônico e ultrapassado''.
GLOSA - Pensadores de esquerda como Hobbsbawn abominam o nacionalismo como uma criação da direita como a de Le Pen na França, Hitler, Mussolini, Franco, Salazar e tantos outros.
VINHETA - ''Façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço.'' A frase é batida e serve para variadas circunstâncias e situações, incluindo as nossas.





