LUIZ GERALDO MAZZA
Prendendo a atenção
Para um governo empenhado em prender a atenção as prisões de ontem foram um auê paroxístico: dois ex-secretários de Estado, um deles acumulando a Copel e a pasta fazendária, mais outros servidores da hierarquia intermediária e empresários, estes de várias unidades federativas, estavam nas grades. Para uma ordem voltada para efeitos ''morais'' foi uma apoteose.
Para quem acompanha a vida brasileira e mesmo a paranaense essas coisas não impressionam. Alvaro Dias também botou na cadeia servidores do governo Richa e teve que assistir, na sequência, a absolvição de todos. Bem antes disso com Ney Braga tivemos a prisão de agrimensores, ligados aos processos fundiários, numa ação ostensiva (o secretário de Justiça, Rubens Requião, comandou a Operação Jagunço em Cascavel e botou em cana três desses profissionais que hoje teriam sido enquadrados em crime de formação de quadrilha) e com forças da PM. Tudo isso durou o espetáculo, a ansiedade, pois um ''habeas corpus'' determinou que Marins Belo, Mario Coquieri e Ralf Piepper respondessem a tudo em liberdade em processos nos quais foram obviamente absolvidos.
O NEYSMO E JUSTIÇAMENTOS A vantagem de Ney Braga sobre os casos de Alvaro Dias e o recente de Roberto Requião é que em seguida, para pacificar o oeste na tensão fundiária, ele e o presidente João Goulart criaram o Grupo Executivo para Terras do Sudoeste, Getsop, que fez uma das maiores distribuições de glebas da história pátria alcançando mais de 50 mil titulados. Isso em 1961-62. Secretariava esse órgão, comandado pelo coronel Brasílio Marques Sobrinho, o jovem engenheiro Deni Schwartz. Aliás muitos dos titulados, por ironia, integram hoje o MST, o que mostra que o ensinamento oriental de que é mais importante aprender a pescar do que ganhar o peixe não é aqui cultuado.
Os feitos, no caso de Ney Braga, foram mais importantes do que o ''chantily'' do espetáculo, o que pode, infelizmente, não ocorrer agora com todo o trauma representado pelas prisões. Aliás é claro que os dois secretários têm direito ao foro privilegiado conforme a jurisprudência da instância superior (não faz muito ela prevaleceu no caso da denúncia da Lunus em cima de Roseana Sarney como de resto se deu, de forma genérica, na gestão FHC com seus auxiliares) e esse entendimento deve impor-se, o de que respondam perante o Tribunal de Justiça, porque ao tempo das ocorrências eram protegidos pelo ''munus'' da função pública.
O LINCHAMENTO De qualquer forma isso atende uma aspiração dominante das massas, inconformadas com a impunidade, o que as conduz às vezes ao exagero de pleitear o linchamento prévio das pessoas. As prisões indicam que o processo foi bem montado, informações seguras do doleiro Youssef fixaram as conexões para que prisões fossem decretadas em outros Estados. Resta que tudo isso se faça com serenidade para que a justiça não opere por reflexos.
A justiça não se faz com o ulular das multidões como em Cuba durante os fuzilamentos no paredon ou o regime do terror da Revolução Francesa. Aqui no Brasil, em 1964, os ''fuzilamentos'' foram alegóricos: lembro claramente do ''frisson'' provocado pelas listas de cassação, inclusive a ''michuruca'' de que fiz parte nas aplicações do Ato Institucional na aldeia. Certas pessoas parecem encontrar compensações psicológicas inextricáveis diante desses fenômenos como no caso daquele personagem de novela norte-americana que ia ao orgasmo quando fuzilavam ou supliciavam negros nos rituais da Ku-Khux-Klan.
Vamos torcer para que Requião, como Ney Braga, passe a ter uma agenda positiva e que sirva mais ao Paraná do que à sua figura de político.





