As polegadas da utopia

Utopia tem tamanho, medida, embora pareça dispensá-los, tal a exatidão dos seus valores imanentes. Quem se der ao cuidado de ler o texto de Tomas Morus vai perceber que ele tem tudo de um memorial descritivo de arquiteto reunindo o conhecimento de astronomia, logística, da época. O cuidado na montagem da cidade, eregida numa ilha, é de tal ordem que leva em conta os conceitos de defesa militar e de inexpugnabilidade.
Curitiba está sendo varrida por uma utopia, a da grande escala e do grande empreendimento, com todos afirmando, no maior entusiasmo, que tudo foi feito sob rigoroso planejamento. Como dimensionar o possível em meio a uma crise da qual não temos a menor idéia de quando sairemos é a questão.
DO CENTRO DE CONVENÇÕES ÀS CONVENÇÕES DO CENTRO O último feito, e esse de medidas ciclópicas, a inauguração do Estação Embratel Convention Center. Pelos erros havidos na recepção ao show inaugural de Roberto Carlos, quando um terço dos convidados ficou de fora, já se tem noção de que é temerário afirmar que dentro de tantos anos haverá o retorno do capital investido de R$ 80 milhões. A trajetória humana é assim sujeita a chuva e trovoada e, quem sabe até, um ciclone como o que atormentou catarinas.
Consolidada pela força de um setor de serviços e hoje com o aporte da tecnologia na industrialização (Cidade Industrial de Curitiba e Araucária, o pólo petroquímico, o pólo automobilístico) suportaria a cidade toda a série de mega-empreendimentos como shoppings (Barigui, o do Sonae no Jockey Club) e hipermercados (a Wal-Mart entrou para valer no Cabral)?
Sou cético em relação à precisão dos estudos de mercado e de sua suposta infalibilidade. Lembro que numa crise brasileira houve dois empreendimentos ao mesmo tempo na Boca Maldita, na Luis Xavier, a menor avenida do mundo: ao norte o Palácio Avenida sede do Bamerindus, ao sul a Galeria Garcez que seria a consolidação do grupo Hermes Macedo, então a maior rede da América Latina, lembrada por sua ousadia arquitetônica à Galeria Fafayete de Paris. Em pouco tempo, como se um vendaval atingisse aquele espaço perdemos, a um só tempo, o nosso maior complexo financeiro e o de lojas de departamentos. Como se não bastasse outras organizações tradicionais, existentes no trecho, dançaram como a Mesbla, Malas Ika e a elegantérrima Alfaiataria Avenida.
ELEGÂNCIA DE ESPADACHIM Como ministrava Lord Keynes, hoje muito lembrado pela esquerda oportunista, a longo prazo todos estaremos mais ou menos mortos. O cronograma de maturação do Centro de Convenções, seguramente o maior da América Latina, é de oito anos. Até lá pode haver um embalo se o espetáculo do crescimento anunciado por Lula vier com todo o fulgor esperado, mas as previsões podem esbarrar em acidentes de percurso ou em provável intervenção do Sobrenatural de Almeida, de que tanto falava o gênio Nelson Rodrigues.
No ato inaugural do empreendimento o nosso governador apareceu não como um gladiador, como quase sempre ocorre, mas com a finura de lutador de florete, e sacou a frase delicada e inteligente no seu discurso mais rápido do que haicai de Helena Kolody: ''você vieram para ouvir outro Roberto, o Carlos, e não o Requião!'' Sobre polegadas da utopia não custa lembrar que a baianíssima Marta Rocha, a mais permanente Miss Brasil, perdeu o título de Miss Universo por causa justamente dessa medida. Polegadas.

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