LUIZ GERALDO MAZZA
As revisões necessárias
Não há história que não mereça revisão. Se o Vaticano resolve pedir perdão à humanidade pelos crimes da Inquisição e o martírio de Giordano Bruno de saída ganhamos algo: pelo menos o dogma da infalibilidade papal, graças a Deus e aos homens, foi para o saco. Não deixa de ser uma vitória do espírito humano sobre o mais pérfido dos obscurantismos.
Agora com o filme de Mel Gibson sobre a paixão de Cristo discutimos algo não tão remoto, mas merecedor de todas as reflexões até pela aproximação litúrgica da Semana Santa. O pai de Gibson, mais à direita do que o filho, fez terrível provocação anti-semita botando em dúvida, em termos econométricos, o quanto foi despendido de gás na execução dos judeus nos campos de extermínio. Por sinal que um judeu escreveu obra de alta provocação ''A indústria do holocausto'', acentuando os exageros do marketing do martírio. Autor da obra: o mestre universitário Norman G. Finkelztein, com farta documentação, o que o coloca quase na condição de um Salman Rushdie com seus ''Versos Satânicos'' diante dos muçulmanos.
HISTÓRIA ADOLESCENTE - O golpe ou revolução de 1964 na perspectiva aludida, na decantação do tempo e do templo, é adolescente ainda para julgamentos fechados. Enquanto o progresso institucional da Argentina e do Chile já permitiu o julgamento de abusos militares, aqui tivemos apenas a sagração dos que perderam. Ironicamente uma caricatura à afirmação do ensaísta e antropólogo italiano, Antonio Negri, sobre a peculiaridade de os vencedores fazerem a história. Apesar de no Brasil ser muito comum a apologia dos derrotados sejam eles Tiradentes, Beckmann, Frei Caneca, Zumbi, Getúlio Vargas, Jango, Lamarca e até o Garrincha. O coitadismo aí opera à toda força e estabelecidos os paradigmas de Pelé e do Garrincha o povo despreza o pobre que deu certo por amor ao culto da derrota, da baixa estima, da autodestruição, dessa religiosidade masoquista e mal dirigida, que busca o nirvana no empalamento.
A VISÃO DO BURGO - O pior de 1964 é quando o foco da investigação vai para o micro e o regional e aí as bravatas se confundem com momentos de catarse. Numa dessas análises o Aníbal Khury, que sempre jogou com a direita e até participava juntamente com o irmão, o deputado federal Jorge, vinculado ao lado dos padres Godinho e Calazans, à banda de música lacerdista, de articulação com grupos militares e pára-militares, foi pintado, num dos documentos da praça, como uma espécie de Che Guevara, uma das mais candentes vítimas do golpe. Pelo controle que exercia sobre os poderes de Estado, a política de cartórios e de terras, apoio a carreiras de delegados de polícia, juízes e promotores, Aníbal, embora o seu inegável talento, estava longe de parecer uma vítima, embora as acusações que sofreu por parte dos militares tenham decorrido da força que exercia no Legislativo, Executivo e também no Judiciário.
VIRTUDES DE MACUNAÍMA - O poder exercido por Aníbal na Assembléia Legislativa está até hoje manifesto na Casa, dirigida pela mesma equipe que ele mantinha em seu comando gerencial e político. E essa circunstância, conservadora de raiz, é uma evidência de que nem os fatores mais traumáticos, dentre os ocorridos ao longo da história (torturas, mortes, banimento, confiscos) foram suficientemente potentes para mudar o ''statu quo ante''.
Há um lado bom na hostilidade de um setor militar contra Aníbal: percebeu-se que os milicos fizeram o possível e o impossível para enquadrá-lo e se revelaram tão incompetentes que o transformaram em vítima. Houve um momento em que alguns militares ficaram surpresos com a criatividade com que criara um sistema de ''caixinha'' do Legislativo, instituição ''alternativa''.
Como Aníbal vários que estavam à frente do golpismo acabaram cassados, dentre eles o Adhemar de Barros, governador de São Paulo e um dos que deram lastro à derrubada de João Goulart. O maior líder civil da derrubada de Jango, Carlos Lacerda, e que pretendia ser o presidente, da mesma forma que o seu colega de Minas, Magalhães Pinto, e deflagrador da ''revolução'', também foi cassado. E depois tentaria a ''frente ampla'' com Jango e Juscelino para restabelecer a ordem democrática numa espécie de purgação de culpas e de repique também aos abusos do regime castrense e castrante.





