LUIZ GERALDO MAZZA
Redentora quarentona
Se há motivo pra pichar a redentora, o golpe ou revolução de 64, a hora é agora, já que nem os militares, cada vez mais discretos, não a comemoram. Como de resto pararam de lembrar a intentona de 35 por uma espécie de estresse, fadiga do material. Só que o sonho de Lula, o espetáculo do crescimento, houve justamente naquele tempo em sequência a feitos da economia brasileira que chegaram durante duas décadas aos maiores registros de elevação do PIB. O orgulho nacional, que já atingira o auge com Juscelino Kubitschek, inclusive ao dar um ''deixa pra lá'' no FMI e levar a idéia força de ''50 anos em 5'' muito mais concreta do que o deplorável ''Fome Zero'' do governo atual, inundou o país de otimismo.
Só uma coisa me preocupa seriamente e de origem aritmética: se éramos tantas as vítimas de 64 (eu também fui colocado em disponibilidade como procurador do Estado e ainda respondi dois IPMS, um dos quais foi à Justiça Militar, o já célebre processo dos jornalistas da ''Última Hora'', e do qual nos livramos com um habeas corpus no Supremo que trancou a ação na origem por falta de justa causa) por que perdemos? As legiões de vítimas de 64 crescem como um baobá na floresta. Jamais, todavia, em dimensões argentinas, chilenas ou uruguaias. Teriam sido mais ousados e determinados para sofrerem a insânia?
REFLEXÃO E AUTOCRÍTICA Quarenta anos é tempo suficiente para avaliar o lado perverso e o positivo da milicada no Poder? Há obras inúmeras sobre o tema. Todavia a série de Élio Gáspari talvez seja o documento mais equilibrado da análise dos acontecimentos, embora ainda no terceiro volume. É que ali aparecem também as razões do outro lado e que havia em muita coisa, menos na sordidez da aliança com a gangue do narcotráfico nas ações do porão e da tortura e execução de combatentes e na crença boçal de que o povo se submeteria à ditadura sem reagir.
Lembro que poucos dias antes do delivramento, Luis Carlos Prestes andou por Curitiba e deveria estar, com toda sua fama de revolucionário (o bom, o quente mesmo, o gênio, o da Coluna), pessimamente mal informado ou tanto quanto Jango ao dizer, desafiadoramente, que a direita pusesse a cara de fora e o resultado todos sabem qual foi: as legiões do CGT, dos sargentos, dos estudantes, da aliança operário-estudantil-camponesa (olha a caretice!), de todos nós, levaram uma tunda das marchadeiras no desafio das batalhas de ruas. Comício da Central dava cem mil pessoas, as rezadeiras botavam um milhão nas ruas de São Paulo, do Rio, de Belo Horizonte. Uma surra inquestionável.
A DERROTA Por que perdemos? Não teria havido de nossa parte que acreditávamos na limpidez das reformas de base tanta prepotência e soberba como a dos milicos? Embora na divisa do nosso partido, o Socialista, o de João Mangabeira, não o de certos personagens equívocos, houvesse a frase ''Socialismo e Liberdade'' acreditávamos demais na nossa liberdade e nunca na do outro. Como é crível que não enxergássemos a obviedade de que os regimes do ''socialismo real'' não passavam de Estados policiais e quando nos diziam algo parecido tínhamos a resposta pronta de que aquilo era propaganda ianque?
Na verdade sempre olhei o episódio como uma decorrência da Guerra Fria, da qual nos transformávamos em títeres. Desde a 2 Guerra Mundial, na campanha da Itália, foi bolado um enlace geopolítico: o coronel Vernon Walters, o homem da CIA, era oficial de ligação com as forças brasileiras. Um destacado militar Cordeiro de Farias, que estava na FEB e convivera com Walters, veio assumir o comando da 5 Região Militar em Curitiba. Aqui teria sido delineada entre Cordeiro e o ianque a criação da Escola Superior de Guerra. Era o prólogo da conspirata que atravessaria o país na queda e ascensão de Getúlio, no seu suicídio, nas crises de 61 e 64.





