LUIZ GERALDO MAZZA
Resistir é preciso
A soberba do governo é incontrastável: cada vez que Requião fala no Plano de Cargos e Salários dos professores deixa bem claro que não se trata de uma conquista da categoria, obtida na luta, mas de uma concessão unicamente do governo e por espírito de Justiça. Aos mestres resta a submissão ao governo, que tem suas razões para o veto do reajuste retroativo a fevereiro, ou ainda o empenho para a derrubada da medida no Legislativo, o que criaria desconforto político de primeira ordem em ano eleitoral. E o que é pior sem garantia de vitória, uma vez que alguns especialistas em Direito Constitucional lembram que mesmo em legislações orgânicas como essa preserva-se ao Executivo aquela iniciativa em matérias que redundem em gastos públicos.
Assim a mesma tenacidade, ainda que próxima da catástrofe, demonstrada na crise do Porto de Paranaguá, exporia os próprios membros da base aliada, uma vez que Requião não hesitaria em dar-lhes uma resposta severa e ao seu estilo buscando saída, que acabaria encontrando, no Poder Judiciário. Aos mestres não há alternativa se não a de dar sequência à luta até para mostrar ao governador que não se deve apenas a ele a conquista e que foi obtida com muito diálogo e o inevitável exercício da pressão.
Vencida a possível resistência da Comissão de Constituição e Justiça, por onde tramitará o processo, restará a cansativa demonstração de força em plenário com as sequelas esperadas de desgaste e que já atingiram o candidato preferencial de Requião à prefeitura da Capital, o deputado Ângelo Vanhoni, um dos principais fiadores do Plano longamente negociado com seu outro aliado e irmão do governador, Maurício Requião, secretário de Educação.
Não há remédio sem efeito secundário: a paralisação do Porto expôs as fragilidades do terminal e a sua decadência operacional, gerou prejuízos imediatos e alguns que se farão sentir ao longo do tempo; a série de contratos rescindidos pode ser revertida na Justiça, como se vê no caso específico do pedágio. É incalculável o efeito de tantas medidas na economia do Paraná e é, em nome desses cuidados, que o governador diz agir no caso específico dos professores para garantir a salubridade do orçamento público. Paradoxal.
BIZARRICE - A pior ditadura é como essas que não ousam dizer o nome.
AXIOMA - Mussolini se achava um predestinado para o bem da Itália e antes do fascismo andou pelo socialismo italiano. Há clones à beça.
GLOSA - A greve só termina quando acaba. É a glosa da frase do narrador esportivo de que o jogo termina quando acaba. Foi o que aconteceu com o Porto: caminhoneiros só voltariam a operar com a diária na mão. Vítimas da logística perversa do terminal, acabam funcionando como silos sobre rodas sem pagamento das taxas de armazenagem. O problema é antigo e com a temporada de concessões reaberta estabelecem um novo impasse.
EPIGRAMA - Um apostema só deixa de latejar quando drenado de toda infecção. O princípio se aplica admiravelmente à política. E aos portos.
FOLCLORE - O governador funcionou na crise portuária com a característica de um ''misturador de vozes''', aquele truque eletrônico para despistar grampo. O resultado é que como o peso de sua presença era maior do que dos demais agentes (exportadores, operadores, trabalhadores) na mídia o que predominou foi muita comunicação, emocional quase sempre, e mínima informação. Agora é que iremos saber as dimensões do prejuízo que Requião dizia não existir.
EPIGRAMA - Já imaginaram a depressão que tomaria conta de quem vive de conflitos num momento de paz?





