Meias-verdades


Já disse, mais de uma vez, que meias-verdades são piores do que a mentira inteira. É o que vemos sistematicamente em todas as batalhas em que se envolve o governo. Agora tenta nos lançar numa lógica incrível: caminhoneiros e sem-terra podem invadir, à vontade, praças de pedágio para um exercício de pressão contra os empreiteiros. Operadores portuários, no entanto, estão impedidos de fazer um locaute (a greve do empresário, tão legítima quanto à do trabalhador) contra o caos imperante no Porto D. Pedro II.
A decisão sobre transgênicos, que no momento não está em causa, ainda que seguidamente usada como argumento oficial, é precária. Não há a lei que a conceba e a proteja, pois o STF passou como um trator sobre a legislação estadual que demagogicamente pretendeu criar aqui uma ''ilha'' como se o Paraná não pertencesse à federação ou quisesse dar uma de Plácido de Castro, o gaúcho, consequente e corajoso, que criou o Acre independente.
Ainda recentemente a Agência Nacional de Transportes Aquaviários mandou ofício à Superintendência do Porto comunicando a inexistência de fundamento para impedir a operação com organismos geneticamente modificados. É um ato preparatório a medidas judiciais que serão intentadas e acatadas, pondo fim a um dos absurdos, não o único, que perturba o corredor de exportação. E se a justiça o acatar o que restará ao governo: convocar os guerreiros do ''Grean Peace'' para atos de bloqueio ou mobilizar outras brigadas para o mesmo fim?
Outra coisa: a verdade é só aquela que sai do governo, em permanente estado de graça, protegido pela frase, quase igual ao ''Shazam'' do Capitão Marvel, com poderes demiúrgicos, ''Requião tem razão''. Ele tinha razão quando se referia à desapropriação da Araupel como exemplo de reforma agrária modelar, ora bloqueada pelo Incra? Tinha razão, quando precipitadamente afirmava que o Paraná gerava 18 mil empregos por mês, lá pelo primeiro trimestre de 2003 e que depois cairia para menos da metade? Tinha razão quando prometia acabar com a banda podre da polícia e baixar índices de criminalidade e violência? Enfim essa vacina da certeza é própria das ditaduras. Pega mal na democracia.
BIZARRICE - ''Requião tem razão'' é meia-verdade. Às vezes sim, às vezes não.
AXIOMA - Apoiado pelo ''teaser'', que lhe garante indulgências plenárias de caráter permanente, ao ouvir que o Porto poderia ser submetido à intervenção federal, Requião reagiu ao seu estilo: ''Waldomiro Diniz será o interventor!''
GLOSA - Segundo Greca e Fruet, Requião prometeu isenção na eleição da Capital. Seria um absurdo o partido maior, PMDB, transformar-se em estepe do menor, PT. Ocorre que conveniências e conivências podem mudar o quadro.
EPIGRAMA - Entre Greca e Fruet, o primeiro dá de dez a zero em ''punch'' até por parecer muito com o governador e superá-lo em conhecimento. Bom na vingança, pode fazer um estrago em Taniguchi e Beto Richa. Mas há fitas terríveis de falas de Requião, as mais pesadas, contra ele como ministro ou prefeito. Vai ter tanta lama na campanha eleitoral para fazer funcionar a mega-olaria.
FOLCLORE - Em Paranaguá o clima estava tão tenso que alguns ousaram dizer que algo parecido só houve em 1850 no episódio ''Cormorant''. Este navio inglês combatia barcos negreiros brasileiros mesmo em águas territoriais. A cidade se organizou e foi até o Forte da Ilha do Mel para combater o invasor. A boa causa estava com o invasor, mas Paranaguá já era o centro do contrabando de escravos do Brasil. Só resta agora Requião dizer que o invasor de agora é o neoliberalismo e a soja transgênica.

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