A arte da rasteira


Quem está na chuva sabe que corre o risco de molhar-se. Da mesma forma quem atua na política, e nos padrões brasileiros, sabe que da mesma forma que aplica rasteira nos adversários eventuais corre o risco de sofrê-la.
É a situação vivida no momento na Assembléia Legislativa com os receios bem fundados de que a solução negociada para a vice da comissão executiva acabe desmontada por alguma das manobras surpreendentes do Palácio Iguaçu ou mesmo de iniciativa da bancada do PMDB. Requião não tolera André Vargas porque não entrou nas intenções do governo na CPI do Pedágio e achou normais os acordos feitos com Lerner. Esse tipo de insolência é inaceitável pelos autoritários que só identificam virtudes na obediência. Essa idiossincrasia contaminou o PMDB que adora cultuar o chefe. Falta apenas o ''anauê'' como saudação que mostrava o engajamento ardoroso dos integralistas, galinhas verdes, dos anos 40 e 50, sob o comando de Plínio Salgado.
Em algumas intervenções como a mais recente da Procuradoria de Justiça Requião deu uma de Garrincha: sugeriu que não acataria o nome do mais votado e sancionou o colocado em segundo, depois de uma espinafração em regra no que chamou de corporativismo do Ministério Público. A cutucada parece ter doído mais do que a injeção. Deputados do PMDB estariam dispostos a preservar o governador da iniciativa, tomando claramente posição hostil a Vargas, para que não parecesse algo originário do Palácio Iguaçu.
Poucos foram os governos que liberaram o Legislativo desse tipo de pressão na hora de montar a comissão executiva. Como lá existia um Aníbal Khury toda a intervenção tinha que ser negociada. Não parece que o suposto herdeiro do guru, na figura de Hermas Brandão, tenha minimamente essa condição.
LÓGICA DO DIEESE - O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos foi uma das maiores vitórias dos trabalhadores por sua credibilidade inclusive no meio científico e acadêmico. Ele saiu em defesa da APP-Sindicato e contra o veto de Requião ao Plano de Cargos e Salários e negando falta de recursos para pagar já o reajuste dos mestres.
O Dieese atende o interesse de quem o contrata: apura se o reajuste dá ou não na disponibilidade orçamentária. Não está nem aí com o fato de que a maioria das categorias, que não tem o poder de pressão dos professores, está em jejum e no exercício do faquirismo. Seu foco, portanto, é unilateral e forçado. Quem cuida do caixa deve saber bem mais do que a burocracia do Dieese.
Um dos exercícios do Dieese, uma garatuja de utopia, é sugerir que o salário mínimo do Brasil deveria ser de mais de R$ 1,2 mil, baseando-se na demagogia, também unilateral, de Getúlio Vargas com aquele decreto sobre cesta básica. Ora quando saiu essa mistificação apenas 20% da população brasileira estava nas cidades e era regida pelo salário mínimo. 80% estavam no campo e só tiveram direitos, primeiro com João Goulart que lhes permitiu a sindicalização intensiva e depois com os militares que levaram parcialmente a CLT na zona rural, o que não impediu a proliferação do trabalho escravo até hoje.
Como utopia, simulação e matemágica é até válido, mas não tem o mínimo dos compromissos com a racionalidade e a lógica. Itens de consumo daquele tempo eram mínimos (não existia TV, telefone, microondas, automóvel, banha em lugar de azeite, enfim bulhufas) e dava para viver com o mínimo. O Dieese criou uma espécie de Pasárgada do proletariado com essa megafantasia.

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