LUIZ GERALDO MAZZA
Conflitos de sempre
Era de prever-se que na esteira dos desentendimentos entre a prefeitura da Capital e o governo estadual pudesse ocorrer até problemas com a deposição do lixo comum, o que já está acontecendo, como se deu e ainda persiste na questão do transporte coletivo. Já me referi aqui a atritos do passado entre o prefeito do PTB (Iberê de Mattos) e o governador do PSD (Moisés Lupion). Num deles, por causa da alta da tarifa de ônibus recusada pelo prefeito, houve um locaute e isso acabou enchendo a bola do populista apaixonado que, com admirável resistência e o trabalho do seu Procurador, Edgar Távora, localizou os coletivos escondidos em São José dos Pinhais. Houve outras, como a decorrente de um decreto de Lupion que transferiu a competência de delegação para o Departamento de Estradas de Rodagem e que a Justiça derrubaria.
HAPPENING Lembro, também, a jogada de Ney Braga, quando prefeito, convocando viaturas do Exército para substituir ônibus que haviam feito um locaute. Virou happening aquele povão, senhoras idosas inclusive, subindo em escadas para tomar seu assento no estilo dos retirantes em caminhões de milicos.
Político, nessas ocasiões, e esse é o ritmo e o cronograma de Requião ao apostar tudo no emocional, vive algo muito próximo da catarse religiosa. É que nem sempre as circunstâncias estabelecem uma consequência durável. Algo como o suicídio de Getúlio Vargas pode brecar uma conspiração e num momento em que tudo parecia colocar mal a posição do presidente na continuidade do atentado contra Carlos Lacerda e que matou o major Rubens Vaz. Assim também o trauma da renúncia de Jânio Quadros que estabeleceu um vazio entre os que o apoiavam.
CENA FRUSTRA Foi justamente, quando o prefeito era o general Iberê de Mattos em Curitiba, que ele exerceu por aqui papel equivalente ao de Brizola na resistência no Palácio Piratini, em Porto Alegre, com a cadeia radiofônica da Legalidade. Iberê, muito ligado ao povão, pois animava carnaval e tinha sido presidente do Ferroviário (hoje Paraná), chegou ao ponto de convocar voluntariado e prometer armas para garantir a posse de João Goulart. A gauchada do CTG, pilchada, tomou conta das ruas e tínhamos desfiles a três por dois. Iberê era o dono da bola, a versão paranaense de Brizola.
Tudo isso se deu em 1961. Meses depois tivemos eleições e o Iberê de Mattos foi candidato a deputado estadual pelo trabalhismo. Ficou com a oitava suplência, o que mostra que nem sempre o que é dramático e forte deixa de ser volátil na passagem do tempo.
BATALHA DO LIXO Se efetivamente o governo estadual criar dificuldades, por via direta ou indireta, para que a ampliação emergencial do aterro sanitário da Cachimba seja feita sem tardança, estaremos diante de um caso concreto, sem qualquer sentido de alegoria, de que a política é mais do que um lixo. Não bastasse a ação de núcleos ambientalistas que dificultaram a montagem de um aterro em Mandirituba, há ainda esse risco. No caso do transporte coletivo, mais uma vez, a Urbs está acumulando prejuízos para manter a integração do sistema com uma resistência tenaz da Comec.
Só falta pretender, como se dava no regime militar, que governador e prefeito tivessem necessariamente que ser do mesmo partido. Com eleição minimamente de verdade é impossível essa coincidência desastrosa. Essa circunstância se dá especialmente nas capitais já que boa parte dos governos, especialmente os do Norte e Nordeste, têm força nos ''grotões'' do interior. Felizmente não é o caso paranaense, embora se repita em Curitiba. Richa, como prefeito em Londrina, foi um caso contrário, já que o governo estadual, o time de Ney Braga, não o hostilizou e, ao contrário, o ajudou.





