Nossa atrofia portuária

Está para ser ouvido na Assembléia Legislativa o diretor técnico do Porto de Paranaguá, Ogarito Linhares. Está aí uma oportunidade para um raio xis em cima do terminal que já foi o mais importante do País como graneleiro e que corre seriamente o risco de perder essa hegemonia. Como há muita competitividade nos corredores de exportação, a perda brutal de eficiência operacional do Porto D. Pedro II acaba afetando o conjunto de nossa economia. Segundo exportadores e as cooperativas é o terminal que mais faz baixar o preço da soja.
A administração é tumultuária e quando o diretor técnico tem muita força (e é o que parece ocorrer) cai o peso do superintendente, que obviamente não é do ramo e enfrentando malha de interesses muito articulada, especialmente na política de campanário de Paranaguá. Nunca os navios ficaram tanto ao largo em Paranaguá como agora, o que aumenta custos operacionais de exportação e também de importação. A balança do terminal de fertilizantes está, há muito, quebrada e embora se trate de simples substituição de peças nada é providenciado. Outra ocorrência estranha está no abalo havido no pier da Petrobras e cujo reparo é protelado e com as atividades substitutivas entregues a operadora privada.
SC E RS AGRADECEM - Tanto os portos de São Paulo e do Rio Grande do Sul como os de Santa Catarina foram beneficiários das vulnerabilidades de Paranaguá diante de tropelias de toda ordem, incluindo a da devassa da soja transgênica que acrescentou mais um elemento de perturbação grave com uma das mais importantes das operadoras, a multinacional Cargill, ter ameaçado abandonar o terminal ante a soma de claros prejuízos que estaria sofrendo. Só o Porto de Rio Grande, conforme matéria desta ''Folha'', prevê um aumento de 32% nas suas exportações neste ano. Os terminais catarinenses São Francisco, Itajaí e Imbituba tiveram um aumento expressivo de cargas de outros estados em quase 15%. O de São Francisco saltou de US$ 2,4 bilhões para superar a média histórica do ano 2000 (US$ 2,6 bi) e o de Itajaí atingiu US$ 3,17 bi e isso até novembro de 2003.
SUMIÇO DA SOJA - O desaparecimento de milhares de toneladas de soja do Porto de Paranaguá ao lado do sumiço de contêineres e de patologias como a da indústria das ações trabalhistas (há uma demanda de arrumadores, originária do primeiro governo Requião, gestão Mario Lobo, a pleitear mais de R$ 300 milhões) reclama uma devassa em profundidade até porque a Justiça tem seguidamente sido provocada, em ações populares e outras de improbidade, para botar ordem no caos. As concessões feitas até de servidão de passagem aérea foram derrubadas no Judiciário, expressão clara de muitas irregularidades.
Um dos relatos mais dramáticos sobre Paranaguá e o seu terminal está numa projeção que os exportadores faziam de que até 2005 ele escoaria 40% de toda a soja brasileira. Mas os indicadores de 2003, primeiro ano dessa gestão, já revelaram queda abrupta relativamente a 2002, que teve 32% do total quando no ano passado a coisa caiu para 27%. Estamos atrofiando que nem maracujá de gaveta, como dizem os parnanguaras que no carnaval fizeram desfilar um bloco do ''papa soja'' uma alegoria ao roubo da leguminosa no porto. E que sabemos não é de hoje, pois se trata de algo orgânico, endêmico, ao ponto de terem sugerido que o desaparecimento dos grãos se dava pela ação dos pombos.
Tudo isso pode ser devidamente clareado pelo diretor técnico. Se estiver com a verdade sair-se-á como o Genico, Eugênio José de Souza, que também dirigiu o porto e foi secretário da Fazenda de Munhoz da Rocha, e que convocado pela oposição (Acioly Filho e Hélio Setti da bancada pessedista) deu um banho em favor do governo com sua sabedoria sem afetação. Faca só lâmina, como diria João Cabral de Mello Neto.

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