LUIZ GERALDO MAZZA
Desobediência civil
O caminhoneiro estacionou na praça de pedágio da Ecovia e disse que só movimentaria seu veículo se pagasse o preço antigo da tarifa. Houve atrito verbal, mas o pessoal da concessionária achou melhor aceitar a proposta do que permitir que a fila fosse crescendo e que outros soubessem da negociação. Como se fosse um herói apareceu num jornal da Globo dizendo que lhe deram o recibo do preço novo, mas que ele pagou o valor antigo.
Isso é desobediência civil, uma arma legítima diante dos abusos. Os preços dessa praça são delinquentes, inaceitáveis, acobertados, porém, por uma planilha esotérica e um contrato leonino. Essa forma de resistência - Ghandi a utilizou na Índia no período mais terrível do domínio britânico - é um ato que decorre de uma filosofia do liberalismo. Tanto que Thoreau a adotava. Nesse caso a ação foi individual, não orquestrada, como a invasão feita pelo MST, o que aumenta a suspeita de cumplicidade e direito futuro na reciprocidade na leniência irresponsável com que se trata qualquer caso de violência contra a propriedade, mesmo quando apoiada em decisão judicial.
É possível protestar, pressionar, como esse caminhoneiro ou os demais colegas que promoveram um buzinaço. Ou ainda seguir aquela sugestão que fiz desde a implantação do sistema: na hora da passagem o usuário ergue os braços como quem está sendo assaltado. Tanto o gesto isolado do caminhoneiro como as outras manifestações são aceitáveis. Já não se pode dizer o mesmo da invasão nas praças de pedágio, especialmente quando acobertadas pela omissão policial.
A rigor, como se trata de desobediência institucional, caberia até o pedido de intervenção federal e de impedimento do governador. Acontece que nesse caso mais uma vez Requião seria beneficiário porque se alimenta do conflito como o Minotauro o fazia com as virgens que deglutia no Labirinto de Creta.
BIZARRICE - É preciso não confundir Labirinto de Creta com o dos cretinos que nada têm a ver com os cretenses. Outra distorção inaceitável é a de chamar a Hidra de Lerna de Hidra de Lerner que se alimentava de negócios privilegiados.
AXIOMA - O jornalista e dono de cartório Rodrigo Barroso denuncia que Hermas Brandão e Caíto Quintana pretendem faturar cartórios. Como há ainda o dossiê do Sílvio Sebastiani está na hora de abrir a caixa preta, antiquíssima, do legislativo. Com tanta CPI por que não uma para examinar-se em profundidade e, quem sabe, depurar-se num ato de purgação de culpas?
GLOSA - Diga-me, Cartário, por que você não se habilita a um cartório? Pode ser tudo, menos constrangimento pelo trocadilho sobre o Cartário cartorial.
EPIGRAMA - Dizem que numa exposição de fotos da Serra do Mar no Museu Oscar Niemeyer teria sido vetada uma de um tucano por suposta alegoria partidária. Situações como essa é que colocam a estética muito próxima da estática. Essa é muito pior do que a censura dos milicos ao balê soviético nos anos de chumbo.
FOLCLORE - É mais fácil um catatônico dançar lambada do que a economia crescer num país que faz subir tributos (Cofins, o mais recente) e que agirá como bola de neve em todos os campos de atividades.
CROMO - No meio da mata apenas o ruído do pica-pau em sua faina. Ele o sujeito oculto da análise lógica da floresta.
AFORÍSTICO - Só falta dizer ''O Estado sou eu'' e ''Depois de mim, o dilúvio''. E não seria um Luiz XIV de escola de samba.





