LUIZ GERALDO MAZZA
A memória frágil
A amnésia do público responde pela reincidência com que os políticos fazem e desfazem, já que eles se sentem seguros diante dessa perda de memória. Quando se discutia a reforma da Previdência a esquerda do PT botou no ar os discursos de Lula, quando na oposição, contra igual medida de FHC. Um escândalo e que ficou pior ainda quando a justiça entendeu que não era válido fazer esse tipo de analogia.
Agora, como estamos em ano político, há alguns missivistas que se deleitam em reproduzir artigos e pronunciamentos de Roberto Requião, no primeiro mandato de governador, atacando Lerner e aliados. Num dos artigos, em que Requião inicia com uma profissão de fé contra o culto à personalidade (poucos, na verdade, o praticam com tanta intensidade quanto ele), acusa o candidato do prefeito (que obviamente ganhou, como sempre, a eleição) de ter a sua campanha paga por empreiteiro municipal e denuncia ainda o superfaturamento dos ônibus de Curitiba em que a distribuidora Nórdica cobrava o dobro do preço dos veículos Volvo para outras cidades.
Essas cartas visam especialmente atingir Rafael Greca, ora aliado de Requião. O que mostra, por uma forma tortuosa, que alguns setores mais temem do que deploram essa aproximação. E como em política vale tudo: Prestes não foi a um comício com Getúlio Vargas depois deste entregar Olga Benário para a Gestapo que a executou em campo de concentração? Na IIa Guerra não tivemos também o pacto de não-agressão Ribbentrop-Molotov entre Alemanha e União Soviética?
O que Requião disse de Greca e este daquele, apesar de seu traço didático, pode ser proibido pela justiça eleitoral na linha do mesmo entendimento que livrou o Lula presidente de ver-se como Lula contestador berrando contra tudo aquilo que acabou fazendo, quando no poder. Convenhamos: não é justo. Está mais para democradura do que para democracia.
BIZARRICE - A polícia demorou, mas afinal assegurou garantias de vida a Sílvio Sebastiani que se diz ameaçado de morte por reunir documentação contra o Legislativo estadual. O SS é mais temido, pelo jeito, do que a SS alemã.
AXIOMA - O Bingo Vilage Batel continua aberto por um despacho do presidente do STF, Maurício Correa. Os vigilantes do governo dormiram no ponto (afinal ora estão atrás do pedágio, ora de questões da Copel ou de outras rescisões contratuais e acabam se perdendo) e não ingressaram em tempo com o agravo, o que manterá a casa funcionando até o julgamento final do mérito dessa pendência. O governo não vai pedir providência disciplinar contra o ministro e nem jogar sua ira contra os seus advogados.
GLOSA - Incitatus, que era um cavalo, foi senador romano. Para uma cavalgadura seria obviamente bem mais fácil.
EPIGRAMA - A praça de pedágio lembra um mata-burro. Não se sabe ainda quem é o burro, mas muitos concorrem ao posto: usuários, governo e empreiteiras.
VINHETA - Exemplo de ética são os anúncios dos cursinhos para vestibulares. Se somarmos os feitos anunciados veremos as artes da ''matemágica''. Dá para concluir de que, de certa forma, toda propaganda tem algo de enganosa.
AFORÍSTICO - Se é um político é possuído, tomado por uma possessão, o mais difícil para ele será sempre tomar posse de si mesmo.
FOLCLORE - Antes se dizia que um gestor estava de caneta cheia para alegar que detinha poder. Agora há como dizer que a tal caneta pode estar cheia de explosivo. E de fato explodir. Como explodiu.





