Ainda a publicidade oculta
É apenas o governo que faz uso da propaganda ''alternativa'' ou ainda tida como ''oculta'' e indireta ou se trata de hábito comum no campo privado? Essas agências de notícias (por sinal relevantíssimas por criarem espaços no mercado) o que são se não produtoras ou reprodutoras de informes interessados?
Da mesma forma que ao governo o interessante é que as notícias saiam como ele deseja, a uma agência de notícias não há outro caminho para atender a clientela que não seja o da informação promocional, ainda que pasteurizada de tal modo que pareça algo distante, neutro, imparcial. Quanto mais próxima desse modelo melhor. ''Assim é se vos parece,'' já o dizia o teatrólogo Luigi Pirandello.

ORQUESTRAÇÃO Lembro da ofensiva liberal-cosmopolita em defesa da livre empresa (''free enterprise'') que tomou conta dos jornais brasileiros nos anos cinquenta para neutralizar o nacionalismo de Getúlio Vargas e que seria um dos fundamentos da campanha que prosseguiria com Kubitschek e que ajudaria a depor Jango. Visível a orquestração, articuladíssima, na linha editorial das publicações de maior peso de todo o país. Vargas criou a Petrobras, hoje cinquentona, ampliou os espaços estatais no refino e na distribuição e anunciou (eu estava presente) a criação da Eletrobrás em Curitiba um ano antes de suicidar-se. Foi em reunião da Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai. Para defender o estatismo, criou-se a ''Última Hora'' que de outro lado provocou a reação contra empréstimos do Banco do Brasil.

NEOLIBERALISMO A correlação de forças mudou e a despeito de toda a onda de privatizações dá para perceber nos anúncios da Rede Globo, por exemplo, o quanto imperam as logomarcas da Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica, Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. E a mídia, tanto a impressa quanto a eletrônica, está aí a pleitear recursos públicos para safar-se da crise assustadora. Pode-se chamar essa sociedade de neoliberal?
Se em termos nacionais é difícil uma relação madura, moderna, entre governo e mídia, ela vai se tornando mais complexa em cenários mais estreitos como o dos estados-membros e municípios. Comum os vetos, bloqueios, de determinadas rádios e TVs por esse poder mais próximo. Vivemos, no entanto, numa situação de tal ordem mutante que um juiz da Bahia (onde as relações ganham um tom patriarcal) decidiu que um jornal vetado na propaganda oficial teria direito a receber o que foi concedido aos outros e na sua específica tabela de preços e ainda outros direitos indenizatórios pela discriminação. Mas comuns, também, as deformações das campanhas sistemáticas para tomar algum na ''marra'' em cima de governantes e instituições privadas.

UM ORNAMENTO Num cenário desses é evidente que a chamada matéria invisível, tão abominada, embora importante, não justifica o zelo que sugere quando a mídia, acuada, vai ao governo federal atrás de recursos para sobreviver, indicando ainda por cima que nada disso implicará na perda da sua soberania e independência. Haja hipocrisia.
Vivemos numa sociedade competitiva, capitalista, na rotina dos escândalos como os da Parmalat, a vergonheira da Enron, da maquiagem da contabilidade de empresas gigantescas para sugerir lucros meramente gráficos e roubar a grana dos poupadores e acionistas e de repente pinçamos num código ético o destaque dado a um ornamento, relevante, mas não maior, das deformações do setor nessa questão da propaganda tida como oculta, invisível ou indireta. De qualquer forma, melhoramos, porque o conflito provocado por essas situações - e é o caso dessa endemia que marca a mídia paranaense - permite que a sociedade discuta e interfira nesse processo. A soberania maior é a da sociedade e a mídia exerce o melhor papel quando a reflete com um máximo de equilíbrio.

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