A velha hipocrisia

É rematadamente ridícula essa questão, que volta à baila, de ''moralismo vitoriano'', sobre as reportagens e textos de interesse de governo publicados sem caracterização comercial. Não apenas Lerner e Requião se valeram desse expediente, já que se trata de algo, arraigado na cultura local, que alcança todos os governos e não apenas veículos da terra, como também os nacionais. É o testemunho de quem já atuou na área oficial e cansou de ver esse alinhamento com publicações, jornais e revistas de expressão nacional e internacional, adotado como rotina e isso desde os anos quarenta, século passado.
MERCHANDISING? Aos governantes sempre pareceu mais eficiente um texto comprometido e como se fosse ''merchandising'' do que a sedução do anúncio publicitário. Diga-se, a bem da verdade, que muitas vezes o simples ''release'' oficial acabava olhado com a mesma importância de um mais trabalhado e dado como reportagem, apoiado em pesquisas e estudos analógicos em retrancas especiais.
Esse festival de moralismo, subjacente nessas questões, tenta fazer crer que eventuais normas deontológicas ditadas pela Associação Nacional dos Jornais seriam suficientes para preservar o ''distanciamento'' da mídia que afinal, e representada pelo que tem de mais expressivo, está pleiteando, como todos sabem, um Proer para tirar da crise os maiores grupos empresariais do setor.
RESISTÊNCIA Assisti, em tempos recentes, num jornal, a pretensão de um dos executivos de que só publicaria tais textos com o registro de informe publicitário. Teve que recuar para não ser prejudicado em seu faturamento, tal a insistência com que o oficialismo impunha a regra mandamental.
Um fato marcante a respeito disso ocorreu na Auditoria de Guerra quando do andamento do processo contra os jornalistas, os profissionais, não os donos. A maioria era de integrantes do jornal ''Última Hora'', tido nos exageros da moda do regime militar, como ''comunista'' quando era apenas nacionaleiro. EMBUSTE REVELADO Puzeram no processo alguns comunistas, como o Capitão Agliberto, para conexão não demonstrada nos autos. Aí o Candinho Gomes Chagas, como testemunha do Edésio Passos, a maior figura do nosso sindicato, no meio da sessão, mostrou uma cópia de um cheque assinado pelo ex-reitor da UFPr e naquele momento ministro da Educação (Flávio Suplicy de Lacerda) em favor do jornal UH por causa das reportagens sobre os incêndios florestais de 1963 no Paraná. Era a prova documental desse absurdo que é a forma pouco imaginosa de subvenção e cooptação da imprensa. O repórter fazia a matéria, às vezes nem imaginando que seria faturável, e quanto mais se dedicasse na sua nobre missão melhor serviria aos interesses do cliente. E como o governo dava ênfase ao ''Paraná em flagelo'', e ainda mais num jornal de tom populista e aguda penetração em todas as classes, acabava a obra como um bom negócio. A regra de sobrevivência é de tal ordem que suportar tudo isso sem Engov é impossível, embora se saiba que o produto não resolve náusea existencial, sartreana.
Como réu naquele processo militar, ví a reação escandalizada do Conselho de Guerra quando o Candinho, dono da ''Paraná em Páginas'', mostrou a cópia do cheque beneficiando ''Última Hora''. Com a veemência peculiar, Candinho perguntou se era mais importante processar aqueles jornalistas, já que se atribuía caráter tão dissolvente ao jornal, ou saber quem financiava UH. E provou, documentalmente, que o maior cliente era o governo.
SUBVENÇÃO Fiz um trocadilho, à época, didaticamente aplicável, que da mídia da terra não se deveria esperar subversão, pois seu campo era o da subvenção.

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