A estrada do caranguejo

Quando da fase mais eufórica das obras de infra-estrutura, chegou-se à conclusão de que não havia, depois de Ney Braga, qualquer outro ''isolado'' no Paraná que não fosse Guaraqueçaba. Como o engenheiro Saul Raiz, um dos maiores tocadores de obras que o Paraná conheceu, era secretário da área dizia-se que só faltava a rodovia do caranguejo que ligaria o asfalto que seguia na direção do Bairro Alto no andamento das obras da Capivari-Cachoeira para a cidadezinha de Guaraqueçaba.
À época o movimento ambientalista não tinha a força de agora, mas assim mesmo alguns pioneiros desse tipo de luta (mais amadorísticos do que profissionais como agora) argumentaram que qualquer obra rodoviária, que alterasse condições existentes e que permitem a sustentação do seu entorno, ainda mais com asfalto e impermeabilização, mexeria no regime de águas e detonaria o ambiente. Vi uma situação dessas na BR 116, altura do Rio Barra do Azeite, quando a obra rodoviária provocou a saída do curso dágua da sua caixa gerando várias praias e obrigando à construção de obras de arte viadutos e pontes no local. Ocorre que a diretriz da BR 116 entre Curitiba e São Paulo, no fim dos anos 50, sob Juscelino Kubitschek, atravessou uma vasta área virgem na qual o homem jamais pusera os pés. A quebra do equilíbrio ambiental se manifestaria não apenas no episódio da Barra do Azeite como também em numerosos trechos em que se tornou indispensável obras de reforço de encosta por causa das chuvas e dos inevitáveis deslizamentos. Alguns desses reforços custavam o mesmo que um viaduto.

O NORTE SALVO O Paraná mantém vasta área do litoral norte sob proteção. Além do chamado lago estuarino, objeto de convênio dos governos paranaense e paulista dirigidos por José Richa e Franco Montoro, e que visa proteger as matrizes de vida na região, há bastante cuidado com a ocupação nas ilhas das Peças e do Superagui onde funcionam pequenas hospedarias adequadas a pescadores e aos praticantes do ecoturismo. É verdade que os ''grileiros'' tentaram várias vezes forçar a barra e transformar esse espaço num pandemônio como o da Ilha do Mel, sobre a qual Requião tem toda a razão quando se revela inconformado com a absoluta falta de condições de salubridade no falso paraíso ''underground'' dos mochileiros, que exercem um quase monopólio daquele acidente e que poderia ser democratizado num sentido menos populista. Sobre a Ilha do Mel, o arquiteto Arnaldo Meister (projetista do Teatro Guaíra e da Rodoferroviária da Capital) chegou a elaborar uma proposta de anti-urbe e que jamais foi levada em conta, enquanto se dava um absurdo processo de ocupação em transações com direitos de posse de pescadores, tudo sob as vistas do Serviço do Patrimônio da União.

LIÇÃO CATARINENSE Essa região podia ao menos ser mais visitada, para fins de contemplação, pelos iates e barcos que fazem o percurso e partem de Paranaguá e Antonina. Tudo depende, porém, de articulação no agenciamento desses deslocamentos e de uma divulgação mais intensa para que possa ser usufruído. Também nesse caso levamos um ''banho'' dos catarinenses. Em diversos pontos do litoral em qualquer pousada ou hotel há oferta de passeios nas baias que contam, tanto nas férias quanto na entressafra turística. Conheci um desses ''tours'' na Pousada da Glória, bairro de São Francisco, com demorado passeio pelos recantos da Baia de Babitanga e paradas para banho nas proximidades de ''coroas'' e baixios.
O terrível no Paraná é a ociosidade ou subutilização de equipamentos. Um catamarã metálico, de altíssima qualidade, obra de engenharia naval, está em Antonina praticamente sem uso. Em Paranaguá, Rua da Praia, no Rio Itiberê há barcos à disposição, também agenciados sem maior visão comercial.

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