LUIZ GERALDO MAZZA
O voluntarismo em prática
Poucos políticos brasileiros expressam o voluntarismo como Requião. Após uma afirmação, seja uma promessa (acabar com o pedágio, combater o bingo) ou mesmo uma diretriz de campanha, lastreada ou não no ideário do PMDB, tenta convencer os outros, de uma forma apaixonada, daquilo que está convencido: vai mudar a realidade, superar a adversidade, ganhar a parada. Um estilo apropriado aos pregadores religiosos e, numa definição mais popular, também aos camelôs e aos propagandistas de rua, que nos oferecem panacéias para os calos e a queda de cabelos e, por vezes, arriscam a dar indicações sobre o destino alheio, já que o deles é ufanístico, tal a convicção que transmitem.
Como desfruta de alguma credibilidade por esse seu lado mais ''hard'' (afinal deu uma dura no Judiciário no seu primeiro governo e agora aplicou uma ''rasteira'' no bingo, ao mesmo tempo em que punha contra a parede o pessoal do pedágio), aposta as suas fichas nessa veemência. Ocorre que, na Justiça ou mesmo em processos administrativos, nem tudo corre conforme os seus desejos e nesses momentos é capaz de revelar iras bíblicas contra os que se colocam em seu caminho como obstáculos.
UM ANO DE PROMESSA Seu desejo de fazer o pedágio baixar ou ser extinto definitivamente é ainda repetido como se já não tivesse passado mais de um ano do compromisso. Parece desconsiderar o cronograma lento e frio demais para o anátema quase religioso, como se anunciasse o inferno para os consórcios rodoviários. De fato conseguiu um acordo com a ''Caminhos do Paraná''. Há a informação de que a auditagem (já considerada nula de pleno direito ou melhor ''inexistente'' no acórdão do TR de Porto Alegre) teria detectado um desvio contábil, merecedor de glosa, da ordem de R$ 36 milhões e, além disso, um dos diretores estaria denunciado no Ministério Público por haver enviado recursos via CC-5 às Ilhas Cayman nos processos do Banestado. Com esses fatores a parte fica fragilizada ao fazer qualquer tipo de acordo. No contrato preliminar, firmado entre o governo e a ''Caminhos do Paraná'', num dos itens há o compromisso, não revelado em seu inteiro teor, de que a concessionária se obrigaria a atender as exigências de um ofício do DER sobre a irregularidade e removê-la.
CRÉDULOS EM MENOR NÚMERO Como a promessa de fazer baixar as tarifas ou extinguir o pedágio, agora com o instrumento que acha legal e hábil para a encampação (como também entendeu que assim fosse com a lei estadual que interditava os transgênicos, derrubada, de forma fulminante, pelo STF), ajudou-o a eleger-se, especialmente quando desmoralizou a idéia mais razoável do seu adversário, Alvaro Dias, de antes de qualquer medida empreender uma auditoria nas empresas, tachando-a de frouxa, conseguiu manter-se na mídia como um guerreiro. Só que o pedágio está aí e em cima da temporada de férias, quando gente de todo o Paraná se vê obrigada a pagar a tarifa elevada para dirigir-se às praias.
Nada disso importa. Não há qualquer sinal de autocrítica no governador, que se mostra anestesiado diante da frustração popular como se tivesse amplo direito à moratória no seu projeto. Enfim como se fosse intemporal. Enquanto a batalha ficava acesa no Paraná - e não se reajustavam as tarifas- em São Paulo, logo no primeiro dia do ano, houve mais 6% em cima do escorchante pedágio. É que da mesma forma que os paulistanos se convenceram da inutilidade do protesto e da necessidade mesma do pedágio, num País em que o Estado faliu, aqui o governo continua convicto de que o fará baixar ou o exterminará. Cada vez, no entanto, é menor o número dos crédulos de que isso está para acontecer.





