O Paraná na crista

Quando o escritor Domingos Pelegrini, inegavelmente um nome nacional, se dispôs a disputar uma indicação para a Academia Brasileira de Letras, tivemos um exemplo de como se pode afirmar o Paraná como unidade federativa. Falta-nos um projeto nessa direção e que serviria para suprir a nossa deficiência notória em termos políticos.
Esses dias, na GloboNews, uma reportagem sobre a Travessa dos Editores e o seu mais importante produto, a revista de cultura ''Etecetera'', que devemos ao gênio e dinamismo de Fábio Campana, jornalista, escritor e editor, mostrou que temos perspectivas de polarização. No passado o tivemos com a Editora ''Guaíra'', de Plácido e Silva, e não faz muito tempo com a ''Gráfica'', uma das melhores produções mundiais de arte publicitária do Mirandinha. Ao dar o nome de Travessa dos Editores à sua editora, Fábio Campana homenageou a ''Guaíra'', aquela que editou John dos Passos, autor maldito, em língua portuguesa pela primeira vez e também ''Huaisipungo'' de Jorge Icaza e produziu toda uma linha de textos do pensamento social e econômico com Marx, Rosa de Luxemburgo, Engels, Lenin, Feuerbach. A âncora Maria Flores, da TV Paranaense, londrinense de origem, escreve monografia de mestrado sobre a editora paranaense num tempo em que o Brasil se marcava por ''ilhas culturais'', a Guaíra aqui, a Globo, de Érico Veríssimo, em Porto Alegre.

POLARIZAR SEMPRE A polarização cultural é um meio de evitar a cultura reflexa, de meramente reprodutora de arquétipos e maneirismos. A revista ''Coyote'', de Londrina, se insere também nessa perspectiva. Mas é preciso saber tirar partido de todo o potencial, drenando-o para uma estratégia de afirmação. Dalton Trevisan o faz com sua obra marcante, traduzida em vários idiomas. Manif Zacarias o consegue ao publicar um verdadeiro tratado sobre a linguagem de ''Os Sertões'', de Euclides da Cunha, justamente premiado pela Academia Brasileira de Letras. Também nos aproximamos desse objetivo quando emplacamos filmes como o recente sobre o sacrifício do Barão de Serro Azul e anteriores de Sílvio Back como ''A Guerra dos Pelados'', que também retratou a saga da Revolução Federalista. E os feitos de Wilson Martins, a maior expressão brasileira da crítica, e Miguel Sanchez Neto, doublê de romancista-ensaista, e a existência de um jornal zangado, afirmativo, como ''Rascunho'' completam esse painel heterogêneo e rico de nossa vida espiritual.
Se somos capazes de tanto no campo cultural (e aí não entram feitos da área mais acadêmica como os ensaios de Belmiro Valverde e dos nossos juristas como Romeu Bacelar, Egas Moniz de Aragão, Renê Ariel Dotti, Juarez Tavares e um dos maiores constitucionalistas do Brasil, Clemerson Merlin Cleve), por que esse imenso vazio na expressão política, apesar do ativismo do nosso governador, tangido por uma bateria Duracel, e o talento parlamentar de um Gustavo Fruet?

A POLÍTICA, O DESASTRE Precisamos juntar esses fragmentos e deles fazer um mural com as virtualidades também emergentes de outros campos como os do mundo empresarial, recreativo, associativo, científico. Termos um Jaime Lerner na presidência da União Internacional dos Arquitetos é um desses referenciais, como representou muito para todos nós a presença do arquiteto (catarina, curitibanizado) Manoel Coelho na última Bienal como único brasileiro.

Não me rendo à caretice do ufanismo, mas nada justifica o nosso imobilismo em relação à impotência dos políticos quando a sociedade se mexe, como um todo, e só ali encontra um ponto inercial e de mediocridade.

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