Montando nas montadoras

Quem montou primeiro foram as montadoras, tantas foram as molezas recebidas do governo Lerner. O episódio da Chrysler, que se mandou, deveria ter servido de alertamento, o que não impediu que novas e abusivas concessões patrimoniais e fiscais fossem feitas.
Há muitos motivos para contestar os exageros. A medida judicial que suspende os benefícios fiscais é provisória. Dificilmente será mantida pelo fato de não haver como mexer em contratos por essa via. ''Pacta sunt servanda'' ou melhor ''os contratos devem ser cumpridos'', diziam os latinos nunca bem entendidos pelos ladinos. Passados pelo filtro, inclusive, da CAE Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, como todos se recordam, os termos desses compromissos foram longamente elaborados, ainda que burramente quase tornados clandestinos.
Há muito o que contestar. Resta saber se há perspectiva de reversão e aí, é claro, escasseiam os fundamentos. Foi melhor que a iniciativa partisse do Ministério Público (MP), dentro das atribuições de zelar pelos interesses difusos da sociedade, do que por mais uma investida do governador Requião em sua ânsia de desfazer modelos e afrontar especialmente a União. Essa decisão em liminar, por exemplo, bloqueia o esforço de Lula para que empresários do Brasil e do Exterior acreditem em marcos regulatórios e invistam no tal Programa Público-Privado que visa recompor a infra-estrutura brasileira para o desenvolvimento.
Tudo o que estiver bem fundamentado em contrato pedágio, transgênicos, Banco Itaú, parcerias da Copel e montadoras dificilmente será mudado por decisão judicial. Pressionar é legítimo até para identificar abusos cometidos. Resta saber se isso não passará de mais um ato de ociosidade nervosa, criando expectativas que afinal não serão satisfeitas.
AFANO O governador quer saber o que há no Porto de Paranaguá. A tal operação de limpar silos, depósitos e armazéns de transgênicos acabou revelando que houve sumiço de soja no terminal. Eduardo Requião foi à polícia denunciar e o caso é constrangedor para a diretoria técnica, do Ongarito, à qual o setor está subordinado. Requião ouviu o superintendente e o diretor técnico e quer clareza para logo, se possível antes do Natal.
Afanos, desvios e patologias assemelhadas são muito mais contagiosos, dentro da tradição, do que os temidos efeitos dos transgênicos. Muito mais comuns e por isso mesmo mais difíceis de erradicar. Se há roubo de mercadorias em contêineres pode-se imaginar o possível e o impossível.
Paranaguá é inconfidente, gosta de apelidar e exagerar. Há uma versão de que teriam desaparecido 16 mil toneladas de soja, algo como uma fila de caminhões desde o complexo portuário até Ponta Grossa. Tal qual se dizia antes quando se frisava que a soja desviada no Porto era pela ação dos pombos. Columbicultores jamais seriam capazes de registrar, pelo consumo de soja, espécimes com um corpo tão volumoso quanto o do secretário de Agricultura.
Lá tudo pode acontecer: pegar fogo no silão, como se deu na primeira gestão Requião, surgirem do nada direitos trabalhistas da ordem de R$ 160 milhões em favor de privilegiadas categorias de portuários e assim por diante. Quem não vai gostar das informações é a Lúcia Requião Arruda, irmã do governador, que tem interesse no residual do silão para obras do Provopar.
NOEL Eduardo Requião, com seu cabelo branquíssimo, era um Papai Noel à tarde em Paranaguá distribuindo uma partida de frango da Sadia, com prazo de validade vencido, na periferia. Frango vencido, soja sumida.

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