Democracia e conciliação (I)

A trajetória de José Richa, que desde ontem nos deixou, é marcada por dois pontos essenciais: democracia e conciliação. Há uma profunda simetria entre esses vetores porque mesmo a ruptura, e nós a tivemos em 1964, acaba exigindo uma reacomodação, tanto nos abalos sísmicos como nas mudanças políticas. Não há na história recente do Paraná um democrata visceral como Richa. Sua matriz política é a do neysmo, o que não o impediu de, por motivações ideológicas, montar uma dissidência no Partido Democrata Cristão face à mobilização e ao empenho monolítico de Ney Braga em impor o nome de Paulo Pimentel.
É verdade que foi favorecido por circunstâncias especiais no governo: o PMDB era uma confederação de tendências, o que o tornava muito parecido com o PT e com sua pretensão voluntarista de mudar. Sua composição ideológica ia do ultra violeta ao infravermelho do espectro e a sua administração tem muito disso. E havia idéias, o que inexiste hoje como a da tecnologia apropriada (e aí fervia a questão ambiental e a discussão do modelo econômico na briga pela pequena escala) e, sobretudo, a da democracia participativa. Ninguém a levou a sério e na prática do cotidiano como Richa. Inclusive o programa Pram, adotado até como modelo pelo Banco Mundial (criado por Lubomir Ficinski na gestão de Ney Braga), passava pelo filtro de assembléias populares que indicavam como num referendo as obras desejadas.
PARTICIPAÇÃO Teve também o gesto de necessária impaciência quando os participativos começaram a abusar no assembleísmo que leva mais fácil ao fascismo do que ao socialismo. Mostrou-lhes a diferença entre democracia e democratismo, algo impensável nos dias de furor populista como os de agora.
Encarou a gigante estatal, a Copel, na hora em que o seu corpo técnico se recusava a simplificar os seus padrões e normas técnicas para possibilitar o maior e mais ousado plano de eletrificação rural que acabou alcançando mais de 120 mil propriedades. Houve, é claro, o trabalho dos ideólogos (existem hoje?) para gerar a metáfora do poste de madeira contra o de concreto. Doutrinação forte marcou o episódio e as duas fornecedoras, para não perder a escala de um mercado cativo e em contínua expansão, baixaram os preços pela metade, o que, somado a outras simplificações, permitiu o deslanche do Clic Rural.
TRANSPARÊNCIA No episódio da denúncia de que o governo pagara comissões indevidas num empréstimo internacional, feita por Belmiro Valverde, do Planejamento, e mal assimilada por Erasmo Garanhão, da Fazenda, acabou sacrificando seus dois melhores auxiliares, mas permitiu algo que seria impensável em governos como os de Requião e Alvaro Dias e até mesmo o de Ney Braga: o caso foi exibido em sessão pública no Legislativo e ainda, por cima, pela televisão.
Ricas experiências de tecnologia alternativa tomaram conta do Paraná e na região da bacia dos rios da Várzea e Negro fechou amplos espaços à ação dos defensivos químicos, plantio direto, adubação verde e uso da tração animal. Esse projeto trouxe cientistas franceses até a região. Havia criatividade, mutirão, psicodrama, o Paraná em debate.
Dele não se esquecem os funcionários públicos porque ganharam pela primeira vez o décimo terceiro salário e ainda a paridade entre o pessoal da ativa e aposentados. E tudo isso numa economia dinâmica e com momentos de intensa mobilização como o do combate às enchentes de 1983. Casas populares, manejo de microbacias. O fato político não subordinava o administrativo e em 1985 venceu todas as eleições municipais, a da Capital e a de 12 municípios da área de segurança nacional. Carregou Requião às costas e o elegeu prefeito contra o mito consolidado de Jaime Lerner.

mockup