LUIZ GERALDO MAZZA
Ainda a identidade
A última edição da revista ''Caderno de Idéias'' se ocupa de uma questão mais sociográfica do que sociológica: a identidade paranaense, o que é apropriado discutir, embora sem solução, nas celebrações do sesquicentenário. Cada vez que se faz a tentativa, são repisados velhos clichês, alguns antiquíssimos e que, por isso mesmo, não caberiam no cenário atualizado, outros com os defeitos de linha de montagem de arquétipos.
Há quem se ligue demais na história de caminhos e que explicariam os fluxos entre Sorocaba e Viamão; outros como o enciclopédico Wilson Martins que dão o máximo relevo ao fluxo imigratório de 1.850 para cá e pegando, portanto, o nascimento da província. Em um século e meio é possível acreditar que sinais de acomodação estariam consolidados na aculturação e miscigenação, o que é pouco para grandes civilizações, mas expressivo o suficiente para as novas.
CONDICIONANTES FÍSICAS Uma fatalidade geográfica, a de ficar quase como um estado-tampão entre São Paulo, de quem descendemos como organização política e econômica, e Rio Grande do Sul, nos coloca sob essa intensa e dupla polarização. Nos tempos recentes também ganhamos uma tonalidade no mosaico: a gaúcha e catarinense no Sudoeste e Oeste. As aproximações com o Rio Grande do Sul estão visíveis até em hábitos alimentares comuns da cultura carreteira e no uso do chimarrão e muito se fala na circunstância de amplo território gaúcho ter sido ocupado por paulistas da Quinta Comarca, afinal curitibanos. Identificação no modo de falar é marcante.
Munhoz da Rocha, bem no estilo condoreiro, costumava dizer que o Paraná seria uma síntese do Brasil por ter se transformado num estuário de todos encontros e desencontros, esperanças e frustrações de brasileiros; soma de estilos que afirmam a pluralidade, amálgama da nacionalidade; eis aí uma tentativa de definição. E como alertavam os latinos ''omnes definitio periculosa est''. Toda definição é perigosa. E tanto que a definição de ''vida'' é mistério.
A DILUIÇÃO Se de um lado o convívio no Paraná justifica o ufanismo, de outro gera preocupação. Tanto que já tivemos movimentos seccionistas (na perspectiva local até explicáveis) como os dos estados do Paranapanema ao Norte e o do Iguaçu ao Sul, esse volta e meia em fermentação aqui e em parte de Santa Catarina. Há também idiossincrasias internas que longe estão de revelar harmonia. Basta lembrar a boçalidade, e essa desencadeada nacionalmente, contra descendentes de italianos, alemães e japoneses na II Guerra Mundial. A casa em que eu morava em Curitiba teve um fator a protegê-la: havia uma placa do consultório de odontologia do meu tio, Manoel Lobo da Silva Brasil. Alguns vizinhos tiveram suas vidraças quebradas; a Fundição Mueller, hoje shopping, foi uma delas, praticamente arrasada nesse particular.
CÉU DE BRIGADEIRO No Paraná há um caso clássico em Céu Azul, oeste: o distrito de Vera Cruz era majoritariamente de nordestinos, enquanto a sede de gaúchos. Vera Cruz do Oeste, tal qual se deu com Fazenda Rio Grande em relação a Mandirituba, ficou maior do que a sede e com domínio da prefeitura e câmara municipal. E a paz só voltou quando se fez a autonomia de Vera Cruz. Assim mesmo alguns repórteres tinham o hábito de argumentar que abaixo da bacia do Piquiri havia o encontro (e aí entravam os conceitos de aculturação e miscigenação) entre o chapéu de couro e a bombacha.
Como se vê pelo exemplo (e que também não deve ser generalizado) nas regras de convivência há momentos de atração e repulsão. Há riograndenses que não toleram os rituais dos tradicionalistas dos CTGs e fazem questão de demonstrar que querem distância da ''pilcha''. Nada impediria, porém, que no Oeste, lá em Céu Azul, gaúchos experimentassem buchada de bode e alagoanos o churrasco.





