Um divisor de águas

O fascínio exercido pelas comemorações pode servir de motivação para que toda uma comunidade busque a rota de auto-superação. Estamos com duas celebrações convergentes: os 150 anos do Paraná e os 69 anos de Londrina. Houve um momento em que a civilização do café e o pioneirismo fizeram da Capital do Café, apesar da sua juventude, o fator mais forte do desenvolvimento regional. Quando Londrina fazia 20 anos, alcançávamos a hegemonia da produção cafeeira nacional e batíamos todos os recordes, fazendo com que o nosso terminal, lá em Paranaguá, batesse o de Santos, antes maior do mundo, a despeito de não contarmos com vias de transporte adequadas ao volume da produção. Parece incrível que a maior parte das safras escoasse pela tortuosa Estrada do Cerne e descesse no primeiro planalto justamente pela Graciosa rumo ao Porto de Paranaguá, um gargalo que afinal não impedia o dinamismo da terra que tanto empolgava o País e era a inflexão permanente da oratória condoreira e afirmativa de Munhoz da Rocha.
O AUTONOMISMO Uma das heranças da cultura setentrional tem sido a da autonomia, da busca de afirmação a todo custo no difícil processo interativo do Paraná. Ninguém esquece das razões localizadas, pela distância do centro decisório, que levaram ao movimento seccionista, que felizmente ficou como alertamento, da criação do Estado do Paranapanema. Com o traço forte da municipalização intensiva, em que as cidades-cogumelo se fragmentavam no fenômeno da cissiparidade, Londrina manteve, ao longo do tempo, a condição de pólo estratégico da região e como a segunda expressão metropolitana do Estado. As mudanças operadas, e que se configuraram na urbanização seguida de industrialização intensiva, não tiveram infelizmente a condição de criar mais lideranças fortes para maior participação na vida estadual. É verdade que teve na eleição de José Richa e de Alvaro Dias para o Palácio Iguaçu a sua marca digital, a da expressão regional como também, anteriormente, com José Hosken de Novaes, embora em curto prazo, na condição de vice-governador que assumiria o Palácio Iguaçu, a vigorosa expressão de um dos raros dirigentes com dimensão de estadista como o foram Munhoz da Rocha, Parigot de Souza e Ney Braga.
BUNKER DA OPOSIÇÃO Londrina foi a base operacional das vitórias de oposição ao regime militar com José Richa na prefeitura e, mais tarde, com Leite Chaves levado à senatória num feito que abalou os fundamentos da ordem vigente e acelerou a volta da democracia. Nem sempre tem tido o respaldo suficiente do governo central para as suas mais relevantes reivindicações em obras, no apoio logístico à especificidade da sua economia e, mormente, no setor cultural em que se destaca por seus méritos e esforços próprios.
Da mesma forma que o Paraná precisa ter uma expressão política simétrica a da sua economia, hoje superando em renda interna o Rio Grande do Sul, o que sempre parecia um sonho distante, também é indispensável que Londrina o faça em termos internos justamente para irrigar a credibilidade paranaense no contexto nacional. É nesse sentido que a evocação do sesquicentenário e dos 69 anos de Londrina se revelam numa interatividade que confirma e consolida a unidade paranaense feita de tão rica diversidade. E convoca todos à mobilização para que os dois registros signifiquem um divisor de águas para mais um ciclo de arrancada civilizatória. Quando Londrina reivindica algo e não é atendida é o Paraná que se atrofia como unidade político-cultural numa das regiões mais importantes do seu desenvolvimento. Daí a necessidade de o governo, sem perder a perspectiva do conjunto, sintonizar-se com Londrina até pelos efeitos multiplicadores de tudo o que pensa e faz.

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