LUIZ GERALDO MAZZA
Restauração possível
Uma das coisas que não entra na cabeça de populistas como Requião, Brizola e outros de extração semelhante é a de que inexiste espaço, depois da operação de lipoaspiração estatal, para a restauração do Estado Provedor. É mais fácil restaurar um trecho combalido de estrada por uma pedagiada do que restabelecer o poder que tudo previa e provia.
Anatematizar ou exorcizar o FMI, Consenso de Washington e a globalização pode servir como ato de descompressão, algo assemelhado ao grito primal sugerido pelo psicanalista, mandando o cliente descarregar seus fantasmas com um berro na janela do consultório, mas não altera os termos da equação. Ademais países com impagáveis dívidas externa e interna não têm como buscar alternativas. Eles lembram em tudo a figura do Estado sob tutela ou curatela que é uma figura do Direito Internacional Público. É por isso que as vezes essa condicionante se sobrepõe às leis do País, obrigando-as a uma adequação. Fazer discurseira e gritaria na base do ''Fora, FMI'' é ridículo e não tem a dignidade mínima de um gesto quixotesco pela inocuidade óbvia da reação.
MODISMOS E CLICHÊS É claro que a evolução dos estados está sujeita aos modismos. O socialismo realmente existente, que não passava de um Estado policial apesar de inegáveis avanços como os havidos na União Soviética, foi um deles; a democracia liberal é outro, porque a metamorfose havida a desnaturou. Norte-americanos, durante o crack da Bolsa em 1929 e o ''New Deal'' de Roosevelt, por exemplo, mudaram seus figurinos de autonomia dos estados-membros em projetos como o da Autarquia do Vale do Tenessee, uma gigante estatal que explorava recursos hidráulicos de forma integrada para a produção de energia, irrigação, água potável, transporte, centros de recreação, irrigação, psicultura etc. Era o momento do keynesianismo, do qual até a esquerda marxista tem saudades.
Como se vê as circunstâncias, e quando nelas falamos a lembrança é do alerta de Ortega y Gasset, podem moldar os cenários. Afinal o IIIº Reich como o Império Romano se acreditaram eternos como é também estranho que se tente, a todo custo, recriar o ''background'' da Guerra Fria para uma luta contra o satanizado de agora, o terrorismo. No momento, porém, o Estado com elefantíase generalizada, está aposentado e sem condições, até a longo prazo, de retorno.
RESTAURAÇÃO IMPOSSÍVEL País que tem gigantes como a Petrobras, uma das maiores do mundo no ramo, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, Infraero, Correios e Telégrafos e Embraer está longe de configurar um modelo neoliberal. É o caso paranaense também com a gigante, antes eficiente, hoje nem tanto, até por esvaziamento de quadros, Copel e a Sanepar. Em alguns setores no entanto o desmanche foi fatal como o do DNER nacional e DER estadual. Quadros humanos do nosso departamento eram excepcionais, inclusive com figuras de expressão da Universidade. Hoje é um retrato na parede que não dói como no poema de Drummond, mas perde a nitidez das imagens como o bafo no espelho para anunciar vida.
Raciocinar em cima de modelos superados e que não retornarão é mera retórica, a não ser que haja um abalo sísmico na ordem das coisas em rupturas como a das duas guerras mundiais que obrigaram o mundo a rever valores e desesperadamente buscar restaurar a harmonia supostamente perdida. O ataque às torres geminadas é um divisor de águas traumático, que provocou a reação ''imperial'' dos Esteites e a aventura no Iraque e que ameaça reproduzir o Vietnã, já que a batalha da guerrilha tomou conta de todo país com perdas dos invasores e tidos como os vitoriosos da guerra. O que não dá para aceitar é o Estado ausente em lugar do onipresente, como ensina Belmiro Valverde.





