O desperdício

Apesar das cautelas recentes como as decorrentes da Lei de Responsabilidade Fiscal não temos no Brasil a menor vocação para a austeridade que o quadro nacional recomenda. Dá para percebê-lo em coisas mínimas como o número de pastas ministeriais e secretariais, um festival de superposição e também de paralelismos que dispersam a ação administrativa. Lula e Requião deveriam ter corrigido a deformação herdada dos antecessores e não o fizeram.
Essas viagens, presidenciais ou governamentais, com tanta gente, seriam, de fato, necessárias? Já a mordomia é tradição sensualística da banana república, da qual não nos desfazemos. Lerner tinha o ''Chapéu Pensador'' para suas horas de reflexão e Requião a Ilha das Cobras. É de perguntar-se: funciona?
Volta e meia, diante do noticiário sobre a posição do Brasil no ''ranking'' da corrupção, faz-se aquela observação: se essa ''grana'' de desvios fosse para obras e ações sociais certamente melhoraríamos. Em todo negócio público, haja ou não observância das regras licitatórias, há possibilidade de fraude, de superfaturamento. E da mesma forma que o dinheiro do narcotráfico acaba entrando nas contas nacionais, tal rumo se daria com o fruto da sacanagem.
Cinicamente dá para concluir que a mordomia é para a contabilidade nacional como o supérfluo para o conjunto da economia. O consumismo já é decorrência do hedonismo, a doutrina do prazer que em Epicuro estava em curtir, imaginem, a prática da virtude. Há no pragmatismo capitalista uma linha de montagem que encontra aí no voluptuário uma de suas expressões mais refinadas e quanto mais subdesenvolvido um povo, e é o caso do Brasil, mais permeável à prática porque ela lhe dá a ilusão compensatória do poder como a visão do povo num desfile de escolas de samba.
A REBELIÃO - Dias passados um dirigente sindical dos guardas de presídio voltou a denunciar que é prática a tortura nos nossos estabelecimentos, ainda que se referisse a episódios ocorridos na gestão passada. Dá a impressão de que intuiu ou acabou fornecendo ''senha'' para os rebelados de ontem de Piraquara e cuja contabilidade rendeu dois mortos. Tanto que usaram em sua defesa o argumento de que sofriam sevícias. O secretário Aldo Parzianelo, da Justiça, com base no serviço de inteligência, tinha feito uma ''limpa'' em torturadores do sistema, demitindo 23 servidores.
Ninguém tem segurança no Paraná. Nem o governador que por sinal mora perto da Penitenciária. Como de resto ela inexiste nem no sistema prisional. Hoje grupos organizados como PCC, Comando Vermelho, Terceiro Comando, estão aí em frequentes batalhas focais, a ''guerrilha'' das prisões. Livrar o Paraná disso é mais importante do que eliminar o bingo e os transgênicos.
Não esqueço do ocorrido, nos anos 50, com Newton Stadler de Souza que foi derrubado da Penitenciária Central por uma rebelião feita por políticos de fora para dentro. O pior é que eram da hierarquia governamental. Idealistas verdadeiros como Newton são um estorvo para políticos profissionais.
FOLCLORE - Guilhobel Camargo de tanto mover ações, fazer charges, contra o governador do Estado foi apelidado de ''Candinho'' do Requião. Analogia depende de comprovação: Cândido Gomes Chagas guerreia Lerner e o seu time há mais de trinta anos, ''usucapião'' trintenário. Uma terra de conformistas precisa desses agentes ''perturbadores''.

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