- Tumulto como oxigênio

O governador Roberto Requião, com sua compulsão centralizadora, age como se tivesse o dom da ubiquidade, isso é o de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, a onipresença. Fatos corriqueiros do seu governo mostram o contrário: não sabia dos investimentos da Fundação Copel em empresas que exploram área exorcizada - a dos operadores no sistema pedagiado de estradas. E pediu uma limpa na estatal, transferindo tal responsabilidade ao presidente da empresa, Paulo Cruz Pimentel.
A licitação da propaganda cometeu erros palmares como o de revelar que uma das ganhadoras tinha como domicílio o Hotel Lancaster, algo parecido com aquela indicação nos empréstimos da Banestado Leasing do escritório do ex-deputado Joaquim dos Santos Filho como referência da financiada de Sergipe no Edifício Adam Smith.
Lá do Texas emitiu aquela ordem para que a diretoria da Copel revogasse um aumento de tarifas, mais uma evidência de que o controle é mais complicado do que aparenta. Os dirigentes, atordoados, não pediram demissão, apesar do vexame e as coisas tiveram continuidade como se nada tivesse ocorrido.
Todo dia um tumulto, uma cobrança forte - essa a rotina. Feitos do governo são mera aparência com recheio de muita paixão. Ainda ontem novas (e de baixa consistência) contestações sobre o próximo aumento do pedágio com impugnações de notas fiscais calçadas ou superfaturadas, enfim o mesmo barulho de sempre e que drenará certamente para o Judiciário e a sustentação do impasse.
Do governo catatônico de Lerner, chegamos a esse intensamente convulsivo. E agora o governador detecta o que não havia percebido quando operou na relatoria da CPI dos Precatórios como senador: a compra dos títulos podres teria servido como elemento de financiamento da campanha eleitoral de Lerner, via Banestado, inclusive na conexão internacional, que o derrotou em 1998.
BIZARRICE - Há um esforço para ''melar'' o foguetório em torno do projeto modelo de reforma agrária na Araupel: o advogado Antonio Carlos Ferreira ingressou com agravo de instrumento no Tribunal Regional Federal de Porto Alegre. Uma revelação surpreendente é a avaliação da Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal que, em valores máximos, atribuiu R$ 15 milhões e não R$ 67 milhões propostos pelo Incra.
AXIOMA - Se houver a demissão dos homens da Fundação Copel por acaso a operação com debêntures, que beneficiaria empresas ligadas ao pedágio, seria desfeita? Em atos complexos não há essa singeleza imaginada pelos políticos.
GLOSA - O governo de agora, como o de antes, está pagando taxas de permanência para empréstimos internacionais em vários fronts de obras públicas por descumprimento de suas obrigações.
EPIGRAMA - Evitar o aumento de 17% no pedágio poderia conferir uma vitória aparente ao governador. Ocorre que sua promessa é mais do que isso: ou baixa a tarifa ou acaba. E o que se discute é um novo aumento como o do ano passado. Os dois lados criam expectativas que dificilmente serão cumpridas.
FOLCLORE - Esse litígio entre governo e pedagiadas é o exemplo clássico de um jogo de pôquer em que os dois lados tentam blefar ao mesmo tempo. Quem dança como sempre é o usuário, enganado por tanta mistificação.
AFORÍSTICO - A raiva maior do verão vai ser na praça do pedágio: parte contra as concessionárias, parte contra a promessa não cumprida do governador.

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