LUIZ GERALDO MAZZA
- A gênese do rombo
Uma cena um tanto quanto chocante foi a forma como o presidente Hermas Brandão, da Assembléia Legislativa, acolitou o ex-secretário Gionédis como se fosse alguma autoridade plenipotenciária quando era alguém convocado, quase debaixo de vara, para depor na CPI do Banestado. Essa interferência, ainda ilustrada com os óculos escuros do presidente, deve ter influído bastante no ardor parlamentar que entrou em queda e foi metabolizado pela conversa do depoente e não o interrogou com o mínimo de veemência que o caso requeria.
Parece que a ameaça de que abriria uma caixa de ferramentas contra os seus inquisidores deve ter operado como fator de contenção, isso sem falar no caso do presidente da CPI, o deputado Neivo Beraldin, que teve que ser detido na estrada pela Polícia Rodoviária por estar dirigindo sem condições. De tudo o que disse o ex-secretário da Fazenda de Lerner o relevante é que atribui ao seu período de administração 33% do rombo, o que não é pequeno, já que isso se deu em menos de oito anos. Só que o afano (Leasing, Corretora) foi visível demais, já que o eclipse protegeu o setor de câmbio, ora devassado na apuração da CPI nacional em torno da lavanderia de Nova York com as contas CC-5.
O Banestado só era bom (nem sempre) para os seus funcionários, muito pouco para a sua clientela, obrigatória, já que favores especiais só a políticos e empresários afinados com a chefia de plantão como alguns candidatos que ganhando menos de R$ 4 mil por mês tiveram empréstimos de R$ 140 mil, um paradigma que, por si só, já explica por que explodiu, como o Banco Central detectou inúmeras vezes. Inclusive desde 1988, governo Alvaro Dias, quando a busca de recursos no interbancário virou uma paranóia, o que não serviu para conter a compulsão dos ousados.
MEMÓRIA - Padeço de um mal terrível: a repetição. Nelson Rodrigues que a adotava como método teorizava a respeito do impulso mnemônico. ''Que seria de mim sem as minhas repetições'' murmurava o teatrólogo. Cineastas e escritores volta e meia incidem nisso: muitas das narrativas de Graciliano Ramos fazem a colagem do memorialístico diante da ficção; o cinema de Federico Fellini é um raconto fragmentário de suas vivências, obviamente ''recriadas''.
Não uso referenciais tão relevantes para tentar justificar o culto pessoal ao ''café requentado''. Mas lá vai: no governo Moisés Lupion, o segundo, estávamos eu e o Carlos Alberto Marques, o Gauchinho (morou muitos anos em Londrina), na primeira reunião do secretariado. E ouvimos o titular da Fazenda, industrial Ivo Leão, revelar, isso em 1956, que o Banestado estava ''quebrado''. Descontado o fato de que todo governo dramatiza a herança do antecessor (e o atual de Lula/Requião o confirma), os dados eram tão expressivos que houve um pedido para que não vazássemos a informação. Depois teríamos uma intervenção do órgão que antecedeu o Banco Central, sob o comando de Heitor Lamounier, acho que a Sumoc, que seria acusado de aceitar terras litigiosas como garantia em operações. E depois de Ney Braga, no governo Pimentel, tivemos a renúncia de Canet Júnior e da diretoria que não aceitou uma decisão do governador em favor da Usina Central de Porecatu. Paulo Pimentel, habilmente, convocou para comandar o Banestado o Manfredini, hierarca do Banco Central com o que dividiu responsabilidades.
FOLCLORE - Resta saber agora quem foi o Rambo do rombo do Banestado, embora se saiba que o mais visível foi o último. Agora dizer que o banco foi privatizado é pura ironia; ele nunca chegou a ser inteiramente público. Só em discurso.





