O conflito como bússola

Nem todo o conflito criado por Requião é mau. Há um lado bom no pleito de transformar o Paraná em área livre dos transgênicos quando centrado em razões mercadológicas, dispensadas bobeiras ideológicas. Há também um aspecto até saudável na guerra do pedágio desde que ela não se transforme numa rebelião inútil. Como há ainda uma perspectiva louvável na resistência ao processo de desverticalização da Copel que já conta com apoio das energéticas de Minas, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul como também no empenho em rever contratos, inclusive o das concessões feitas às montadoras e ao Banco Itaú.
A questão está na dosagem. Para combater o bingo era preciso fazer uma guerra santa e apodá-lo de estar a serviço da lavagem de dinheiro, quando o próprio Lula quer restabelecê-lo? Para responder a acusação de nepotismo feita pela ''Folha de S.Paulo'' o caminho estaria em atribuí-lo ao antecessor, posto que as denúncias anteriores daquele jornal o beneficiaram como no caso do caixa 2 ou no das reportagens promocionais feitas sem caracterização publicitária, velho hábito da praça que testemunho há mais de 50 anos?
É impossível nomear parentes entre parênteses. Sai no ''Diário Oficial'' que, devidamente decodificado, o que não é fácil, é veículo essencialmente de oposição. Basta um pouco de acuidade e habilidade de monge copista (uma das pessoas que fazia a melhor leitura de ''Diário Oficial'' que conheci nas minhas andanças foi o Mussa José Assis) e a matéria está ao alcance de qualquer um, o que mata a hipótese da indução e instigação. Claro que essa doutrina, a da visão conspiratória da história, operou a todo o vapor na suposta defesa do governo, atribuindo-a a Lerner que era entediado no governo e muito mais o será num hipotética oposição.
O conflito bem gerido pode render frutos. Quando é marcado pela perda das estribeiras dá maus resultados como no caso presente do nepotismo: uma notícia de jornal, é verdade que ocupando uma página, foi maximizada pela reação do próprio governador ao chegar aos meios eletrônicos, especialmente a tevê.
BIZARRICE - Também surgem as piadas sobre nepotismo: a de que o caso autêntico de Bolsa Família teria sido paranaense.
AXIOMA - ''O Paraná é Requião, irmão'' ''teaser'' das campanhas anteriores teria sido mudado para ''O Paraná é irmão, Requião''.
GLOSA - Outro referencial de campanha ''Requião me chama que eu vou'' teria, é claro, sensibilizado os mais próximos, os familiares, em primeiro lugar.
EPIGRAMA - Pelo anedotário dá para perceber que o governador poderia se valer do seu senso de humor, nem sempre ácido, para replicar a denúncia de nepotismo. A máxima de Guevara a de que se deve ser duro sem perder a ternura pode ser interpretada também como referência ao humor. Denúncias de irregularidades e desídias de Lerner devem ser feitas independentemente de causa estranha como fator motivacional, o que as colocaria no plano da vindita.
FOLCLORE - E vamos à resposta clássica de Nho Guata (Guataçara Borba Carneiro), governador, quando o interpelaram por haver nomeado o filho para o Tribunal de Contas: ''E vosmecê queria, por acaso, que eu nomeasse o seu?'' Rústica, mas bem autêntica, e seguindo a liturgia de poder no Brasil. A cara brasileira, meio macunaímica, mas inegavelmente nossa.

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