A visão para dentro

Políticos normalmente, e em especial quando detêm mandato executivo, se perdem nas avaliações dos acontecimentos por levarem em conta a visão interna, de colegiado, e não num filtro de um olhar de fora para dentro. Foi assim, na campanha de 1990, quando Richa, candidato, atingido pela bateria do PMDB das certidões de sua aposentadoria (uma delas obtida por Luis Claudio Romanelli), fez um discurso veemente, na intimidade do partido, dizendo que a aceitava sim porque era um direito, etc. Como o público era engajado, bateu palmas dando razão ao ex-governador e que seria desclassificado no primeiro turno em parte justamente por causa da mega-exploração em torno do fato. Os companheiros se emocionaram tanto com as palavras firmes do candidato que acharam válido incluí-la no programa eleitoral com o que ampliaram as dimensões do desastre.
Ontem, pela manhã, houve uma situação bem parecida no Museu Oscar Niemeyer: o governador, a pretexto de responder reportagem da ''Folha de S.Paulo'' sobre o nepotismo em sua gestão, passou a atacar seu antecessor que nada tinha a ver com o peixe (mesmo porque foi mais contido em proteção familiar) e até usando palavras de baixo calão para reforçar o tom emocional. Obviamente, como no caso de Richa, os áulicos foram à catarse diante do palavrão como resposta e o aplaudiram intensamente. E o público, aquele que está lá fora, mas que julgou duramente o Richa, que análise faria da resposta do governador?
DIREITO & MORAL - Nomear parentes não é ilegal, esclareça-se. A análise do assunto se prende apenas ao aspecto moral. Normalmente todo o sistema flagrado em nepotismo tem a resposta de que os parentes designados são competentes. Nem todo o governante adota essa linha comportamental de amparar parentes e afins: Ney Braga nomeou apenas um irmão, o Guilherme Lacerda Braga para a Fundepar; Alvaro Dias designou seu irmão, Osmar, um caso de competência manifesta, embora seja de família numerosa, manos à bessa; Parigot de Souza, Jaime Canet Júnior, Emílio Gomes, Munhoz da Rocha e tantos outros não o fizeram.
Isso não significa que os que nomearam pouco ou nenhum sejam melhores, mas serve para mostrar que há alternativas fora do âmbito familiar e que a adoção de escolhas é pessoal, intransferível. Se isso é moralismo pequeno-burguês, como diz o Romanelli ao defender-se, é discutível porque em toda plataforma de partido fora do poder o nepotismo é abominado, como se dava no PT na oposição e que nega tudo na prática do governo em relação ao tema. Mais uma razão adicional para que se tome Engov diante dos fatos políticos.
BIZARRICE - A analogia entre o caso Richa e Requião, relativamente ao público interno, se escuda ainda num fato adicional: no caso de 1990 os que aplaudiam tinham a expectativa do poder, no de agora os que o fizeram têm razões mais imediatas para a sua ruidosa manifestação, uma vez que o desfrutam.
AXIOMA - Vamos às consequências da ironia: quem garantiu a eleição de Requião foi Alvaro Dias em 1990 como se dera com Richa na de prefeito em 1985. O aplaudido de hoje é o vaiado de amanhã. Valores e pessoas mudam ao sabor das circunstâncias. Requião e Alvaro se recusaram a receber os valores de aposentadoria. Mas dissentiram na forma de ver a questão da nomeação dos parentes, especialmente irmãos. Se no primeiro caso a posição não os torna melhores do que os outros, que a aceitaram como Paulo Pimentel (não nomeou parentes, apenas um primo), no segundo há uma divergência numérica.

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