Sublimando o passado


Políticos são especialistas em atribuir todos os males aos seus antecessores, quando em cargo executivo, esquecendo que a roleta do destino os pode também colocar como culpados. É o que se viu agora com parte do relatório da CPI estadual do Banestado que remonta ao ano de 1988, gestão Alvaro Dias, um dos pontos nodais da quebra do estabelecimento pela imposição de buscar crédito para sustentá-lo diariamente no interbancário.
O pior não é isso. Não foram poucos os governantes nesse período, que vai de 1988 a 1999, o momento agônico, que mostravam, apesar de tudo o que ocorria, balanços com saúde de vaca premiada e que ironicamente, por isso mesmo, ainda pagavam mais Imposto de Renda no altar do ''marketing''. No relatório do Banco Central de 1988 há indicação que os empréstimos interbancários naquele ano, no valor de R$ 2,314 milhões, ''precisariam, para ser produtivos, estar aplicados em empréstimos concedidos a taxas apropriadas e ao mesmo tempo de baixo risco''. Como se vê da mesma maneira que o Banco Central funciona mal, e todo o histórico do socorro pelo Proer o confirma, os bancos, especialmente esses estaduais, faziam o que bem entendiam a despeito do aparato fiscalizatório que vai do Legislativo ao Tribunal de Contas e acaba envolvido pela hegemonia e hipertrofia centralizante do Executivo. É aí que se percebe a inutilidade instrumental da trilogia dos Poderes de Montesquieu.
Assim a responsabilidade pelo havido no Banestado é de todos e não deste ou daquele agente. É um processo indivisível, tal a cultura de clientelismo sustentada ao longo da sua existência e manipulada pela classe política e empresarial. Não foi, portanto, apenas o governo Lerner que agia como um fim de festa nas concessões e desvios. Louve-se o fato de que ações detetivescas, contratadas pela diretoria do banco, detectaram, usando ''grampos'' nos fios telefônicos, as mutretas da Leasing que foram enunciadas, inclusive, em reuniões de diretoria e que ganharam até a internet, apesar do sigilo que deveria presidir tais encontros.
Governantes, de um modo geral, agem como se inspirados pela frase clássica de Luis XIV ''depois de mim o dilúvio''. Para quem se acha a encarnação do Estado (O Estado sou eu) trata-se de um desdobramento lógico. Acontece que eles voltam ao local da curtição, do desfrute. E chega a hora do bumerangue.

AINDA THUROW Meu primeiro contacto com Lester Thurow foi num presente do Hélio Duque, o livro que tentava desvendar o futuro do capitalismo. Aliás esse tipo de investigação, quando colocado para os filósofos, resulta numa forma de reação negativa. Hegel respondeu à interpelação sobre o futuro da filosofia numa conferência que o seu objetivo era o permanente. Thurow vê ainda amplas possibilidades com todo o caráter mutante do capitalismo. Mas disse claramente no Brasil que se havia incidido em erro na política de atração das montadoras. Algumas das restrições genéricas que fez foram dirigidas à guerra fiscal. E a economista Diana Farrel, diretora do McKinsey Global Institute, detalhou: ''Cada emprego criado nas fábricas de automóveis instaladas no Brasil entre 1995 e 1998 custou o equivalente a US$ 182 mil em incentivos. Valor representa mais de 20 vezes a renda per capita do País.'' Nos ''Esteites'', onde o quadro não era bom, cada emprego custou US$ 28 mil em incentivos nas sete automotivas instaladas nos anos 80.
Nada dessa massa crítica operou no momento certo. Como no caso Banestado teremos no máximo uma radiografia tardia de um drama que poderíamos ao menos ter discutido com um pouco mais de seriedade. Nem a evasão da Chrysler foi suficiente para ligar o ''desconfiômetro''.

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