O vazio do ‘‘frisson’’
Confunde-se democracia participativa com esse clima de assembleísmo, tanto aqui quanto no Brasil, que marca debates relevantes como esse da transgenia na arregimentação de ambientalistas e MST. Dessa vez, pelo menos, tiveram melhor comportamento do que no momento da aprovação da lei (inócua, pelo menos até aqui) de encampação do pedágio com aquelas violências desnecessárias dos sem-terra e um setor caminhoneiro engajado e a serviço do PMDB.
Esse pessoal ligado em mobilização de rua (e que se mostra mais eficiente quando no governo) se acredita o vetor da história quando não a expressão da própria revolução. Da mesma forma que nas seitas religiosas há os que confiam que Jesus aparece na certa no dia seguinte eles estão convencidos que contam com as maiorias e, sobretudo, que a parada está ganha.
FÚRIA DE 1961 Um dos maiores momentos desse tipo de furor aconteceu em 1961 em função da renúncia de Jânio e da luta de Brizola, no Palácio Piratini, comandando a Rede da Legalidade, pela posse de Jango. A intervenção do gaúcho e o apoio da Brigada Militar, mais a adesão do general Machado Lopes, comandante do 3º Exército, inibiu a ação de outras unidades e ao menos prorrogou o golpe em pelo menos três anos. Os que viviam o momento achavam que a hora era aquela, a de todos os acertos e de botar o ''povo'' no poder.
Em Curitiba o nosso Brizola foi um general, o prefeito Iberê de Mattos, um populista visceral, que mobilizou o povo e chegou a criar o voluntariado para ''pegar em armas'' em defesa de Jango. Era uma festa ver o pessoal dos CTGs, devidamente pilchados, nas demonstrações de vigor cívico e de atendimento à convocação do governador riograndense. Foi, Iberê, a figura maior em termos locais, especialmente por sua condição de militar, enquanto Ney Braga, que era o governador, ficava perplexo e apelava para que Jânio voltasse atrás.
BARRICADAS Uma atmosfera e um ''decor'' de Balaiada, Sabinada, Inconfidência Mineira, Revolução Francesa (e a soviética também) impregnava. A catarse cívica, um elo único na emoção, era marcante. Alguns meses depois Iberê foi candidato e ficou na oitava suplência de deputado estadual pelo PTB, prova de que o ''frisson'' não é permanente e que raramente o juízo está presente nesses agitos marcados pela demagogia e o primarismo. Foi o que se viu na sequência da sanção da lei que interdita os transgênicos e agora com o bloqueio à exportação da soja paraguaia em Paranaguá tenta-se dar moratória ao espetáculo como se ele não estivesse sujeito à dissipação e à entropia.
Da mesma forma que o Nelton Friedrich, que não se elegeu, acredita ter sido ele e os demais manifestantes da Boca Maldita que impediram o leilão da Copel e não o mercado, com sua fria e distanciada racionalidade, mais ainda o ataque terrorista às torres geminadas em Nova York e também a evidência dos apagões.
Assim se deu igualmente com os comícios das ''Diretas Já'' que pareciam marcar o fim do ciclo militar e que, depois do ''frisson'', tiveram que assimilar o vazio da derrota da Emenda Dante de Oliveira no Congresso. Da mesma forma a afixação do placar com os nomes dos que votaram contra as diretas para forçar incompatibilidade com o eleitorado resultou inútil porque muitos dos execrados se reelegeram e um bom punhado dos que estavam com a boa causa ''dançaram''.
No imaginário do povo, este sim mutante, Lula era a revolução, e não essa reprise de FHC e de estrita obediência ao receituário do FMI.

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