LUIZ GERALDO MAZZA
Bloqueio que deu certo
Não dá para apostar na eficácia dessa pretensão de transformar o Paraná em área interdita à soja transgênica. Aliás não apenas a leguminosa porque se o governador não vetar o artigo 5º da lei que pretende sancionar segunda feira teremos um segundo espetáculo dantesco: a invasão de fiscais em mercearias, hiper e supermercados atrás de produtos geneticamente modificados e cuja listagem alcança mais de meia centena. Os olhos de Algaci Túlio brilhavam com tal possibilidade que daria tarefa prioritária ao Procom, saindo porém da rotina das denúncias contra as teles, juros bancários, deficiências da Copel.
Há bloqueios que dão certo, ainda que nem sempre bem intencionados, como aquele que foi deflagrado por São Paulo contra o cancro cítrico. Ai de quem fosse apanhado nas estradas federais e estaduais com mimosa, pocan ou mexerica, limão ou laranja baiana ou ainda uma simples muda de qualquer cítrico. Como o Paraná não tinha uma retaguarda científica para captar que, interditado à produção de cítricos, abria-se caminho para mais um salto agroindustrial do qual não participaríamos - o da produção intensiva dos sucos, hoje um dos itens fortes da exportação e que volta e meia a rapinagem ianque taxa fortemente desequilibrando o mercado.
LARANJA MADURA E, de fato, ingressamos tardiamente num ciclo que poderia nos ter beneficiado como se dá com numerosas comunidades paulistanas e hoje beneficia, ainda que de forma tímida, o noroeste paranaense. As resistências do Paraná foram tardias quando o produto poderia ter sido um dos substitutivos, ao lado da cana de açúcar e do algodão, do café por sua forte incorporação de mão de obra e efeitos multiplicadores na economia.
Outra forma, essa eficaz e necessária, foi a estabelecida contra a febre aftosa. No sul, Santa Catarina e Rio Grande foram declaradas áreas indenes à doença. Lembro de uma cena ridícula de administradores e políticos paranaenses (dentre eles Aníbal Khury e Hermas Brandão), tentando forçar a barra para a passagem de gado e carne paranaenses, sem a competente certificação, na divisa com Santa Catarina.
O cordão sanitário não se confunde com o episódio de agora, no qual o governador Requião vai aparecer como a figura maior do noticiário e como um resistente ecológico quase tão natural como aqueles ambientalistas em cujo corpo nascem lianas e musgo em lugar de pelos e cabelos.
CRISE CRÔNICA O pior está por vir: não são poucas as lavouras do Paraná que utilizam sementes geneticamente modificadas. Serão erradicadas e indenizadas como o governador falou ontem na CBN Curitiba como se deu com a erradicação dos cafezais antieconômicos? Da mesma forma teremos questões judiciais e mais ainda as decorrentes da lei genérica que interdita os produtos com origem em manipulação genética e que vai do tomate longa vida, ketchup. mostarda, óleo de canola a marcas de leite de soja.
Para um governo que não tem com atender as promessas básicas que fez (luz, água e leite de graça aos pobres; baixa ou extinção do pedágio) essa movimentação toda, quanto mais intensa, melhor. É algo bem mais consistente do que fechar bingos. Mas, cá entre nós, bem melhor seria que se fizesse mobilização equivalente para acabar com a escalada de violência que assinala registros nunca antes atingidos. Aí mereceria o apoio de todos sem distinção.





