LUIZ GERALDO MAZZA
O retrocesso vem aí
Se fizerem com empresas como a das Indústrias Klabin o que acabam de consumar na Araupel, em meio a convulsivas manifestações demagógicas, a institucionalização aberta do retrocesso estará em pauta. O MST é uma ação contra a economia de escala e contra a capitalização, essa que dá ao agronegócio do Brasil uma expressão superior à alcançada pelos norte-americanos e europeus. Dá-se as costas aos feitos maiores do País para repor o sonho dos dois alqueires e uma vaca do direitista Gustavo Corção, o universo primário da agricultura de subsistência.
Anuncia-se para o dispêndio fabuloso da aquisição de terras um novo modelo de reforma agrária como se a humanidade e o Brasil já não os tivessem testado. Faríamos o que lá no oeste paranaense: os kolkoses e sovkoses dos soviéticos, os kibutz dos israelenses. Afinal o MST se orgulha da diversidade que caracteriza os seus assentamentos, inclusive de experiências coletivas de exploração, mas pelo que se sabe é mais eficaz nas suas ações políticas, permeadas por um basismo radical e com um tom fundamentalista, do que nas econômicas. Embora tenha exemplos positivos na produção, comercialização e industrialização eles desaparecem no conjunto de ações dispersas, venda dos lotes assentados, agressão ao meio ambiente.
MODELO OU UTOPIA RETRÔ É muito difícil esperar que aflore um modelo operativo e eficaz de reforma que dê retorno ao gigantesco recurso investido na compra das áreas, isso sem considerar os demais que advirão visando a consolidação do assentamento. Ocorre que tudo o que se tem feito na área é muito pobre e por isso mesmo insuficiente sequer para alcançar objetivos sociais, já que os econômicos dificilmente se darão.
O exemplo de que uma ocupação, fulminada pela Justiça e tolerada pelos governos na ânsia de parecerem ''politicamente corretos'', que persiste e é atendida pela União em projeto de reforma agrária, é, antes de tudo, temerário e capaz de induzir os proprietários de terra a até buscarem na desapropriação uma forma de escapar da ansiedade e dos riscos quando decidem defender o seu patrimônio. Até por isso era indispensável que se fizesse um levantamento, em extensão e profundidade, para ver o retorno econômico dessa política e corrigir rumos ante a obviedade de que há dispersão de recursos e de que nem se garante a fixação do homem à terra, tantos são os casos de evasão e, sobretudo, de venda das áreas.
EVITAR A FRUSTRAÇÃO Espera-se que o compromisso de que teremos um novo ''modelo'' faça do ''case'' da Araupel uma referência internacional e que anule aquela sentença-anátema do esquerdista Ignácio Rangel que já fim dos anos 50 afirmava que a ''a reforma agrária no Brasil perdera o bonde da história'' pela evidência da capitalização intensiva no campo, da urbanização, da industrialização e da construção progressiva daquilo que os sociólogos chamam de uma ''sociedade complexa'' articulada ao contemporâneo.
O maior projeto de reforma agrária no Brasil 11 mil hectares plantados, na Fazenda Itamaraty, Ponta Porã (MS) fez este ano em janeiro a sua primeira colheita e a festejou: 53 mil toneladas de milho e soja, lucro de R$ 5 milhões para 1.143 famílias de ex-sem terra. Dividida a grana, daria R$ 364,53 mensais por família, meta que está abaixo do ''Fome Zero'', gerando pouco mais de R$ 3 por pessoa ao dia. Percebe-se que nem tudo vale a pena, ainda quando a verba não é pequena. Recriar miseráveis, em escala progressiva, é absurdo.





