O impasse como norma
Tudo é impasse: o pedágio (as concessionárias anunciando agora uma perícia da Fundação Getúlio Vargas que estima em R$ 4 bilhões a indenização se encamparem o sistema), o bingo, os contratos do governo passado (alguns deles revertidos por decisão judicial), transgênicos (aqui pelo menos a argumentação de Requião é centrada em razões de mercado e não ideológicas), a polícia que não melhora, a despeito das promessas solenes de que se depuraria, o descumprimento das decisões judiciais nas invasões. Enfim, a prática é essa, a do impasse.
Não apenas no caso dos transgênicos os conflitos acabam alcançando o governo federal que editou Medida Provisória a respeito. Há ainda a questão do modelo energético e que, em princípio, levaria à desverticalização da Copel. Apenas no caso específico do pedágio abriu-se perspectiva de sincronia com a União com o apoio à devassa. Há a decisão do TCU que declarou nula a privatização das rodovias, argumento hoje fortalecido com a idéia de que o impacto tarifário (R$ 6,80 a cada 100 kms) seria intolerável no custo Brasil. De outro lado, porém, o governo Lula precisa dar garantias (regras claras, hoje nem tanto com as mudanças operacionais nas agências reguladoras) para que ocorram, na escala devida, os investimentos privados na área pública.
Como se vê a safra que está por vir de incidentes na gestão oficial é mais ou menos correspondente à semeadura, pacientemente elaborada, e alimentada pela emoção do imediato.
BIZARRICE - Mais vale acionar um isqueiro do que maldizer a escuridão. Eis a máxima que pode ser feita com a chegada da fábrica chinesa de isqueiros.
AXIOMA - E quem sabe com os isqueiros haja a luz no fim do túnel.
GLOSA - Se além da CPI legislativa, agora a Fundação Getúlio Vargas sugere que os contratos do pedágio estão corretos (e que a indenização ultrapassaria os R$ 4 bilhões), o jeito é aferrar-se na decisão do TCU que declarou nulos os contratos de privatização das rodovias. Palhaçada selvagem na base de bloqueio de estradas e invasão de praças de pedágio não resolve, embora seja uma certa especialidade, a única, de alguns grupos.
EPIGRAMA - Por sinal que no PT sempre foi possível distinguir outras facções: a dos petecostais, dos petelhos e dos petecântropus erectus.
COMPETIÇÃO - No futebol das relações com o FMI, a Argentina, até aqui pelo menos, parece ter levado a melhor sobre o Brasil.
FOLCLORE - O espetáculo do crescimento vai ser adiado para 2004 e até lá vamos viver de fantasias, discursos, metáforas: o país informal é maior do que o legal (mais trabalhadores na economia ''invisível'', centenas de milhares de mandados de prisão não cumpridos, favelas entregues ao narcotráfico, sem-terra cercando propriedades). Os transgênicos, proibidos por decisão judicial, são liberados pelo governo. É o entrelaçamento do país legal com o real. Dá até a impressão de que tudo o que acontece é programado. Escritores do ''realismo fantástico'' aqui fariam obras mais fortes com simples reportagens.
AFORÍSTICO - Cartas abertas: a do promotor Fuad Farage contra a Corregedoria do Ministério Público e a do Guilhobel Camargo sobre a TV Educativa tratam do mesmo tema - a submissão ao autoritarismo.

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